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Mensagens

Mudamos tudo

Mudamos tudo, já reparaste? Mudamos isto, mudamos aquilo. Mudamos tudo, como te disse. Já viste como mudamos todos os dias? Mudamos a maneira de falar, mudamos a forma de ver as coisas, mudamos o aspeto. Se a alma dói ao mudar, mudamos a noção de dor. Mudamos o sorriso, mudamos o aperto de mão, mudamos o abraço. Sentiste? Mudamos os móveis de sítio para mudarmos o nosso pequeno mundo, mudamos de canal para ver o que queremos e não o que de facto existe. Mudamos o fundo do telemóvel porque aquele já não faz sentido, mudamos precisamente o sentido do que antes era inalterável mas que agora não resistimos a mudar.  Mudamos de carro para os vizinhos verem, mudamos de casa porque estamos fartos deles, mudamos de copo porque este está rachado. E quando as coisas estão rachadas mudam-se, não é? Repara como mudamos o tom a cada dia, como mudamos as palavras que dirigimos um ao outro. Mudamos de direção porque o vento sopra para ali, mudamos de médico porque este diz-nos que...

a gosto

De todas as coisas boas que o verão tem, a melhor talvez seja o tempo. E não se fala aqui de sol, mas de horas, minutos e segundos. As pessoas parecem ter mais tempo para aquilo que gostam e, quem gosta delas, agradece. Para quem trabalha, as férias surgem como um oásis em pleno deserto. Muitas vezes nem é para descansar da atividade diária nem das pessoas com quem lidamos no trabalho. O mais importante, pelo menos para mim, é poder regressar por uma semana que seja aos tempos em que escolhíamos com quem passar as 24 horas do dia. É por isso que estes são os dias mais rápidos do ano, todos os anos. Passam literalmente a correr, ainda que deixemos os relógios e telemóveis de lado e nos foquemos apenas nas risadas à beira-mar. Parece sempre que chegamos ao último dia sem que tenhamos desfeito completamente a mala que trouxemos. Na verdade, pouco me interessa se os poucos dias de férias são passados numa praia do sul ou numa montanha do norte. Sei que toda a gente diz que a...

Combinações

Levo esta. Penso que já tenho a camisa finalmente escolhida, mas volto atrás e troco novamente. Falta pouco para sair de casa. Olho uma última vez para o sofá e já te imagino ali, comigo. Sou o último a chegar e vejo um lugar ao teu lado, mas aprendi que devemos sempre desconfiar dos melhores lugares e acabo por me sentar praticamente na outra ponta da mesa. És um dos meus alvos no “olá” coletivo, evitando beijos a tudo e todos. A conversa flui, os olhares passam aqui e ali, e o relógio não para. O assunto vai desde a Grécia ao Benfica, desde a praia de ontem ao jantar da próxima quinta. Temos amigos inteligentes, é certo, mas nós estamos numa frequência diferente. Cada coisa que lançamos para a mesa em forma de palavras tanto pode ler-se da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Fazes malabarismos com o copo e eu respondo-te com um toque subtil quando passo por ti para ir à casa de banho. É uma dança e aqui não há uma estrela e um aprendiz. Há dois executant...

Olhos de ver

Assim é difícil. Sei que as aparências iludem, faz parte daqueles chavões que aprendemos à força nesta vida. Mas porra, não deviam ser os nossos olhos os maiores confidentes do mundo? Só queria a verdade. Ver as coisas como elas realmente são. Até as redes sociais, com fotografias ao pontapé de tudo o que mexe, começam finalmente a render-se à realidade onde o “sem filtro” traz de volta a beleza perdida. A verdade é que te vejo de forma distorcida. Sei disso, mas não consigo evitá-lo. Tenho uma imagem tua mais turva do que um bebé que mal vê um metro à sua frente. Sei que não és esse paraíso todo, esse mundo ideal onde sinto que podia ficar centenas de anos. Sei que é mentira. Que os meus olhos me mentem com toda a lata. Mas estou tão apaixonado por eles – ou pelo que eles me mostram de ti – que caio repetidamente no erro de voltar, como quem é traído uma e outra vez mas perdoa sempre. O amor é cego - é uma verdade. Mas tanto é fogo que arde sem se ver, como vemos algo a...

A coerência de Jesus e Sócrates

Não sei se algum dia se cruzaram. Não faço ideia se Jorge Jesus vota no PS nem me lembro se José Sócrates é do Benfica, mas nestes últimos tempos estiveram ambos ligados pela coerência, algo admirável nas pessoas. Comecemos por Évora. O advogado de Sócrates – o bonacheirão, não o outro mal disposto – sempre disse que nunca iria aceitar uma eventual prisão domiciliária porque seria como assinar metade da culpa. Concordar com o facto de estar preso, ainda que em casa, pode virar o rumo das coisas. A Justiça estendeu a mão a Sócrates num dia em que estavam 30 e muitos graus no Alentejo. Tinha tudo para acabar bem: o ex-primeiro ministro regressava a casa, ao ar condicionado, via a família, podia fazer o seu jogging no quintal e ainda ganhava um valioso exemplar de bijuteria abraçado ao tornozelo. Mas Sócrates não quis. Entendeu que todas as benesses do seu lar, do conforto dos seus, não superavam o que teria a ganhar com a sua nega. Já antes Jorge Jesus tinha feito o mesmo. Podi...