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Combinações

Levo esta. Penso que já tenho a camisa finalmente escolhida, mas volto atrás e troco novamente. Falta pouco para sair de casa. Olho uma última vez para o sofá e já te imagino ali, comigo.

Sou o último a chegar e vejo um lugar ao teu lado, mas aprendi que devemos sempre desconfiar dos melhores lugares e acabo por me sentar praticamente na outra ponta da mesa. És um dos meus alvos no “olá” coletivo, evitando beijos a tudo e todos. A conversa flui, os olhares passam aqui e ali, e o relógio não para. O assunto vai desde a Grécia ao Benfica, desde a praia de ontem ao jantar da próxima quinta. Temos amigos inteligentes, é certo, mas nós estamos numa frequência diferente. Cada coisa que lançamos para a mesa em forma de palavras tanto pode ler-se da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Fazes malabarismos com o copo e eu respondo-te com um toque subtil quando passo por ti para ir à casa de banho.

É uma dança e aqui não há uma estrela e um aprendiz. Há dois executantes perfeitos que se combinam de olhos fechados, tanto num techno cerrado que nos droga na mesma linha, como num kizomba tão efervescente quanto a pastilha que mastigas.

Volto à mesa e desta vez sim, aceito a cadeira vizinha da tua. Mais um copo, mais outro, sei que te sabem tão pouco como a mim. Saímos e despedimo-nos no estacionamento, juntamente com o pessoal, e cada um entra no seu carro. Por coincidência, somos os últimos a arrancar e começa o jogo. O primeiro cruzamento fica para trás mas continuas bem presente no espelho. Sei que já devias ter virado, sabes que te testo quando dou mais uma volta à rotunda e ambos sabemos onde acaba o mapa. Não tens sequer tempo de fechar o carro antes de eu te fechar a boca com os lábios.

Sobes metade das escadas de costas, viramos a meio, as chaves caem com estrondo no soalho quando entramos. A luz do hall espreita a sala e indica-nos o sofá. O tal sofá. Num turbilhão de emoções, a tv liga-se quando caímos em cima do comando. O apresentador pede que adivinhem a cidade com cinco letras, tu desenhas-me as linhas do alfabeto no pescoço com sal+iva e eu tenho o coração a 760. Expulsas as sandálias da Primark, o Swatch salta-me do pulso e ficamos apenas com as marcas que nos hão de lembrar amanhã o lado mais belo da noite humana.

Puxas a camisola para cima até ao momento em que te travo, numa atitude de “deixa-me ser eu”. Desliza tão bem sobre o teu corpo quanto as minhas mãos e ajuda a formar um amontoado de roupa no chão. Mentimos um ao outro consecutivamente, mas sabemos que tudo o que se disser dali em diante esfuma-se com o chegar da manhã.

Acordo sem abrir os olhos e, apenas por descargo de consciência, estendo o braço para o lado para confirmar o óbvio: já foste embora. Levanto-me e luto contra o sol até à sala, onde encontro uma camisa dobrada nas costas do sofá com um bilhete por cima: “Gosto mais desta”. Rio-me e penso que, pelo menos hoje, já saio mais cedo de casa.

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