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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2013

Plastificados

Desde cedo nos ensinam a passar as coisas a limpo. Parece haver um amor próprio em repeti-las, sem picos, sem altos e baixos, limpinhas limpinhas, como dizia o outro. A verdade é que nunca fui nessa conversa. O que os outros chamavam de rascunho eu chamava de versão final; e o que eles chamavam de versão final eu chamava de perda de tempo. À medida que fomos crescendo, o discurso foi mudando. As coisas passaram do papel para a vida real e a palavra também se alterou de “passar” para “tirar” a limpo. E mais uma vez, foi-nos dito e ensinado que as incidências desta vida têm de ser, pois então, tiradas a limpo, que os conflitos não são bem o que mostram ser, e que estávamos errados da primeira vez. Não querendo ser repetitivo, a verdade é que voltei a não ir nessa conversa. Não sei, pareceu-me uma má companhia e nunca lhe dei muita confiança. Nunca foi lá a casa e até atravesso a estrada para o outro lado quando vem na minha direção. Passar ou tirar as coisas a limpo reti

Pedidos

É costume torcer o nariz a quem não diz as palavras mágicas quando pede alguma coisa. Mas o que torcemos nós quando alguém nos pede, por favor, para irmos embora? É difícil imaginar algo mais tocante. Um pedido amavelmente disfarçado de ordem que vem sempre em má altura. É certo que temos de tirar o chapéu a quem tem a dignidade de ser bem educado e pedir por favor para nos ver pelas costas. Admito que seja um ato de benevolência e, simultaneamente, de coragem tentar ser delicado com quem nos incomoda naquele momento. E é um facto que as pessoas preferem levar um pontapé no rabo com umas pantufas em vez de umas botas de biqueira de aço. Ainda assim, cheira a paradoxo por todos os lados. E, pior do que isso, é o que fazem essas palavras. A pele que perfuram, os limites que ultrapassam. Ouvir um pedido desses, ainda para mais acompanhado de um “por favor”, é como ser atingido por uma daquelas “bombas sujas” usadas no terrorismo. É algo diminuto que nos atinge com uma precisão mi

Abrir a porta

Só há um lugar onde toda a gente é simpática para nós, mesmo sem nos conhecer de lado nenhum. Apenas existe um sítio onde novos e velhos nos presenteiam com graciosos gestos de bondade. Uma situação única seja na cidade ou na aldeia: o vaivém das portas públicas. Sim, estou precisamente a falar daquela situação em que passamos por uma porta mas não retiramos a mão, por simpatia e amabilidade à pessoa de trás, que nos retribui com um delicado “obrigado”. Esta simples ação, este aguardar por quem nunca se viu, este pequeno esforço ensina-nos muito. E nem damos por tal. Qual será o mistério? Que feitiço é este das passagens pelas portas que nos faz esquecer a pressa do século XXI e o frenesim do quotidiano? Bem sei que procuram neste blogue respostas para a vossa vida, mas a verdade é que não sei responder a esta. O que sei, e desde já vos passo a transmitir, é que todos podemos aproveitar esta situação! Se é um facto que as pessoas – sejam boas ou más – parecem derreter-se e