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Mensagens

Outono

Entrámos no outono, a melhor estação do ano. Eu sei que é estranho, toda a gente prefere o verão, o calor, a praia, as roupas curtas. No máximo, a seguir ao verão virá a primavera, com o regresso do sol e das esplanadas. Logo depois o inverno, a neve, a lareira, o natal e a passagem de ano. E por último, o renegado outono. Frio, cinzento, amorfo, desconfortável. É o que muitos pensam. Mas eu não. O outono traz muito mais do que nos tira, e não estou a falar de casacos. Traz, por exemplo, o descanso de um verão animado, o parar da confusão, a calma que nos aconchega e nos faz pensar. Sobretudo isso, pensar. O outono faz-nos refletir sobre o que se passou e antever o que aí vem. Separa o trigo do joio quando prende alguns aos programas televisivos da moda que estreiam sempre na rentrée. Dá-nos outra sensação de chegar a casa e sentirmo-nos bem, sem ser preciso ir abrir as janelas para arejar. Diverte-nos quando vamos na rua a pisar as folhas secas no chão, fazendo barulhos entre...

Querer

Desde miúdos que desejamos algo. Aqueles Legos, aquela Barbie, aquele jogo. Passamos a vida a atormentar quem tem o poder de decidir para que nos satisfaça esse pequeno grande desejo. No entanto, quando alcançamos, por fim, aquilo que tanto queríamos, muitas vezes o entusiasmo dura um par de dias antes de virarmos atenções para o próximo objetivo. Esta característica cresce connosco e não muda muito. O fruto proibido é sempre o mais apetecido e, quando o temos finalmente à nossa frente, fresco e com bom aspeto, a paixão que tínhamos por ele decide pregar-nos uma partida e esconder-se definitivamente. Como se ficássemos satisfeitos apenas pelo desejo de conquista e nada mais. É nosso, passemos ao próximo. Há, ainda assim, e como em tudo, exceções à regra. E que fique bem claro: se essas exceções conseguem fugir a uma condição tão pré-estabelecida é porque devem ser importantes, marcantes e únicas. Não são muitas, mas existem e fazem-se notar. Se pararmos para pensar mais a séri...

Há sempre algo

Este mundo é tão imenso que a mais minúscula insignificância pode ditar aquilo que somos, o que fazemos, onde ficamos e a quem chegamos. Há sempre algo, e nem sequer é o famoso “mas”. Porque se fosse apenas um “mas” já éramos felizes há muito tempo. Nunca chego a perceber porquê. Aparece isto e aquilo, e faz desaparecer tudo outra vez. Passa uma mosca, uma simples mosca, e as suas patéticas asas fazem desabar todo o castelo de cartas que tínhamos vindo a construir e o qual pintámos com aquela cor que só existe quando estamos juntos. Eu juro, abro os olhos o mais que posso, tento antecipar tudo que vem na nossa direção. Mas só tenho duas mãos, pequenas, muito pequenas para proteger algo tão valioso. E, ainda assim, até apanho algumas pedras a tempo, mas outras esmurram, magoam, rasgam. Fazes-me, só por ti, apanhá-las e mandá-las de volta para bem longe, mas sinto-me como se estivesse a tirar água daquelas poças que fazia à beira-mar quando era miúdo. A água vem na mesma, salgad...

Psicologia bancária

Parece que o BES é o próximo a necessitar da ajuda do Estado para sobreviver. O banco entrou em depressão, já não se arranja como antes, todo bonito em tons de verde-primavera. Já não sai à noite com os amigos e deixou de se cuidar. O BES precisa, é evidente, de uma namorada. A situação do Banco Espírito Santo faz lembrar aquele tipo de amigos que quando se vê com alguma autonomia deixa os velhos companheiros. Conhecia muita gente, frequentava muitos sítios, experimentava muitas coisas. Basicamente estava no auge, na capa das revistas e era RP das discotecas da moda. Tinha as miúdas que queria e carro novo oferecido pelos pais. Mas esqueceu-se de que nada dura para sempre e que a descer todos os (espíritos) santos ajudam. É giro ver como as coisas mudam. Quem não se lembra de coisas como “não tens pais verdes? Queres casa? Vai ao BES”. Bom, agora o cenário inverteu-se: os investidores até ficam verdes com os prejuízos apresentados pelas últimas contas e, se há alguém que preci...

Biclas

Por entre toda a atualidade que este país nos oferece vou continuando a surpreender-me quando se calhar já não devia. Mas agora que pertencemos a uma comunidade que alberga um ditador corrupto, o leque alarga-se de tal maneira que praticamente tudo passa a ser aceitável. E a última é esta: os condutores deviam assumir as responsabilidades pelos acidentes com ciclistas, fossem culpados ou não. Como já perceberam, a coisa promete. Há movimentos para tudo. Há um que defende as lagostas para não serem cozidas vivas, há outro pela legalização das drogas leves, há mais um que preza pela diminuição de deputados na assembleia e haverá com certeza um que é completamente contra o facto de as folhas de papel não virem já escritas. Eu próprio tenho ideias para alguns movimentos e associações, como a Liga Nacional a Favor do Extermínio das Melgas ou a Associação de Moradores do Fogueteiro que Nunca Lá Moraram. E só por tudo isto percebo que haja uma corrente na sociedade portuguesa que defend...