Avançar para o conteúdo principal

Outono

Entrámos no outono, a melhor estação do ano. Eu sei que é estranho, toda a gente prefere o verão, o calor, a praia, as roupas curtas. No máximo, a seguir ao verão virá a primavera, com o regresso do sol e das esplanadas. Logo depois o inverno, a neve, a lareira, o natal e a passagem de ano. E por último, o renegado outono. Frio, cinzento, amorfo, desconfortável. É o que muitos pensam. Mas eu não.

O outono traz muito mais do que nos tira, e não estou a falar de casacos. Traz, por exemplo, o descanso de um verão animado, o parar da confusão, a calma que nos aconchega e nos faz pensar. Sobretudo isso, pensar. O outono faz-nos refletir sobre o que se passou e antever o que aí vem. Separa o trigo do joio quando prende alguns aos programas televisivos da moda que estreiam sempre na rentrée.

Dá-nos outra sensação de chegar a casa e sentirmo-nos bem, sem ser preciso ir abrir as janelas para arejar. Diverte-nos quando vamos na rua a pisar as folhas secas no chão, fazendo barulhos entretidos. Prestamos mais atenção a tudo: à rádio, aos jornais, ao céu, à terra, aos outros e a nós. O outono sabe fazer isso como mais nenhuma estação do ano: fazer com que nós sejamos o centro das nossas próprias atenções.

Não há estação do ano mais verdadeira do que o outono. Sem filtros, sem máscaras, sem óculos de sol a tapar-nos a alma. Nada é artificial na cor das árvores, nada é condicionado no ar do vento.


O outono marca o regresso ao trabalho ou às aulas, ao nosso quotidiano do qual nos queixamos tantas vezes mas o mesmo sem o qual não sabemos viver. Volta o ar fresco, renovado, natural. Voltam as comidas mais elaboradas, mais quentes, mais repletas. Volta o apetite. O outono também é isso, baseado no regresso de coisas que nos fazem e sabem tão bem, e das quais fizemos uma longa pausa para voltarmos a senti-las como se fosse a primeira vez.

Comentários

Os mais vistos do momento

... É incrível o poder desta cidade. Poder vir para cá o mais devastado possível. Poder sentir-se a pior pessoa do mundo. Até poder sê-la. Mas mudar tudo quando se chega aqui. Coimbra é quase como a ilha da série Lost, que tudo cura e onde tudo acontece. E quem não gosta de se perder aqui? De sentir, de provar, de viver a cidade? Ou aqueles banhos de imersão no filme Wanted. É disso que eu falo. Da capacidade de curar em horas aquilo que, fora daqui, demoraria dias ou meses. Esse é o efeito Coimbra. Presente nas tardes de sol, no espírito académico, nas festas e na noite, mas também nos amigos, nos momentos menos bons, nossos e deles, e nas noites frias e chuvosas. Tudo ajuda, tudo faz parte. As marcas que levamos daqui, duvido que algum dia deixem de se ver. Da mesma maneira que não me imagino a estudar noutra cidade, também não consigo encaixar a ideia de ter de sair daqui no final do curso. Mas vai acontecer. E nesse dia, como nunca, vamos perceber finalmente o poder do fado, sentir...

Trump e os Estados Divididos da América

O mundo olha com atenção para o que se passa nos Estados Unidos. Ou melhor, nuns surpreendentes Estados Divididos da América, nos quais a possibilidade de um pesadelo ao nível do melhor terror de Hollywood é assustadoramente real. É que Trump está mesmo na luta. Há meses que o anunciava. Disse sempre, por entre ameaças à sociedade, que ia vencer as eleições. Contudo, ninguém acreditou que pudesse sequer discutir com o estatuto de Hillary. Quer porque a ex-primeira dama gozava de grande popularidade, quer porque o mundo ria-se de um ricaço que se apresentava às eleições de forma exuberante. Aliás, Madonna disse ontem que o mundo continua a rir-se dos EUA. E é verdade, por duas razões. A primeira porque a missão de um palhaço no circo é fazer rir as pessoas. Trump assumiu a postura do palhaço das eleições norte-americanas, usa o espalhafato, o ar bonacheirão e o lustre do cabelo para arrastar multidões. O problema é o segundo motivo pelo qual o mundo se ri de Trump. É que uma...

Marcelo e o assalto à Casa Branca

Há um filme de 2013 chamado ‘Assalto à Casa Branca’ (ou ‘Olympus has Fallen’ na versão original) em que o lar do presidente dos Estados Unidos da América é invadido por malfeitores. Ora, na quinta-feira assistimos a uma versão real desta película, com a diferença de, em vez de malfeitores, a Casa Branca ser tomada de assalto por Marcelo Rebelo de Sousa . Tenho Donald Trump como um estratega que não é tão limitado em pensamento como aparenta. Evidentemente, tem ideias lunáticas e crê que o planeta é uma ‘sand box’ gigante, se me permitem uma expressão muito em voga no mundo dos videojogos. No entanto, Trump faz da atenção a todos os perigos apontados à América uma bandeira sua e as propostas vão desde um simples muro na fronteira à proibição de entrada de muçulmanos, passando por bombardear a Síria ou criar uma força espacial – esta, confesso, nem o mais criativo dos génios se lembrava. No entanto Trump e a sua – atenção: ler com sotaque rasca francês – entourage não esta...