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Mensagens

Há sempre algo

Este mundo é tão imenso que a mais minúscula insignificância pode ditar aquilo que somos, o que fazemos, onde ficamos e a quem chegamos. Há sempre algo, e nem sequer é o famoso “mas”. Porque se fosse apenas um “mas” já éramos felizes há muito tempo. Nunca chego a perceber porquê. Aparece isto e aquilo, e faz desaparecer tudo outra vez. Passa uma mosca, uma simples mosca, e as suas patéticas asas fazem desabar todo o castelo de cartas que tínhamos vindo a construir e o qual pintámos com aquela cor que só existe quando estamos juntos. Eu juro, abro os olhos o mais que posso, tento antecipar tudo que vem na nossa direção. Mas só tenho duas mãos, pequenas, muito pequenas para proteger algo tão valioso. E, ainda assim, até apanho algumas pedras a tempo, mas outras esmurram, magoam, rasgam. Fazes-me, só por ti, apanhá-las e mandá-las de volta para bem longe, mas sinto-me como se estivesse a tirar água daquelas poças que fazia à beira-mar quando era miúdo. A água vem na mesma, salgad...

Psicologia bancária

Parece que o BES é o próximo a necessitar da ajuda do Estado para sobreviver. O banco entrou em depressão, já não se arranja como antes, todo bonito em tons de verde-primavera. Já não sai à noite com os amigos e deixou de se cuidar. O BES precisa, é evidente, de uma namorada. A situação do Banco Espírito Santo faz lembrar aquele tipo de amigos que quando se vê com alguma autonomia deixa os velhos companheiros. Conhecia muita gente, frequentava muitos sítios, experimentava muitas coisas. Basicamente estava no auge, na capa das revistas e era RP das discotecas da moda. Tinha as miúdas que queria e carro novo oferecido pelos pais. Mas esqueceu-se de que nada dura para sempre e que a descer todos os (espíritos) santos ajudam. É giro ver como as coisas mudam. Quem não se lembra de coisas como “não tens pais verdes? Queres casa? Vai ao BES”. Bom, agora o cenário inverteu-se: os investidores até ficam verdes com os prejuízos apresentados pelas últimas contas e, se há alguém que preci...

Biclas

Por entre toda a atualidade que este país nos oferece vou continuando a surpreender-me quando se calhar já não devia. Mas agora que pertencemos a uma comunidade que alberga um ditador corrupto, o leque alarga-se de tal maneira que praticamente tudo passa a ser aceitável. E a última é esta: os condutores deviam assumir as responsabilidades pelos acidentes com ciclistas, fossem culpados ou não. Como já perceberam, a coisa promete. Há movimentos para tudo. Há um que defende as lagostas para não serem cozidas vivas, há outro pela legalização das drogas leves, há mais um que preza pela diminuição de deputados na assembleia e haverá com certeza um que é completamente contra o facto de as folhas de papel não virem já escritas. Eu próprio tenho ideias para alguns movimentos e associações, como a Liga Nacional a Favor do Extermínio das Melgas ou a Associação de Moradores do Fogueteiro que Nunca Lá Moraram. E só por tudo isto percebo que haja uma corrente na sociedade portuguesa que defend...

Vergüenza

Um dos assuntos que esteve em voga por estes dias foi a inclusão da Guiné Equatorial como membro da CPLP. Juro que quando ouvi isto pela primeira vez pensei que o locutor das notícias ficasse pelo “CP” e imaginei-me logo a apanhar um urbano na estação de Roma-Areeiro para Malabo, com paragem em Alfarelos para abastecer. Mas depois lá veio o LP, e que bela música deram a Cavaco e Passos no tal encontro. Tenho de admitir que foi um grande momento assistir às caras de ambos quando esperavam começar por uma valsa e de repente soou a mais estridente das guitarras de metal. Acho mesmo que o presidente da República tinha treinado uns passinhos de dança suaves com a Maria, para que quando começassem as negociações sobre a aceitação da Guiné Equatorial pudesse fazer um brilharete a meio das conversas. Mas não, Cavaco viu-se imediatamente rodeado de pessoas de cabelo comprido a abanarem violentamente a cabeça enquanto faziam um M com as mãos. E, pior do que tudo, não percebeu um chavo da le...

À roda

Agora que acabou o futebol na terra dos outros e que o nosso ainda está em banho-maria, volta a haver tempo para se falar de crise, crise essa que desta vez parece ter chegado ao Bloco de Esquerda. Ana Drago, uma das carinhas larocas do partido, deixou de o ser porque, segundo a própria, são mais as divergências do que as convergências. Bom, Ana lá terá as suas razões para abandonar o barco. Não deixa de ser curioso que alguém com o seu sobrenome o faça, pois rapidamente poderia fazer aqui um trocadilho com dragar a areia das águas onde o BE há muito encalhou. Na verdade, Ana Drago atirou-se à água para rumar a terra. No entanto, se nos transportes marítimos a coisa não parece fiável, nos terrestres não está melhor. Pensemos no sistema político nacional e comparemo-lo ao trânsito. O governo pode figurar numa rotunda, ou não fosse Fernando Ruas um convicto laranja. Facto é que o executivo entrou numa roda – houve quem lhe chamasse espiral – e tem sido difícil encontrar saídas. ...