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À roda

Agora que acabou o futebol na terra dos outros e que o nosso ainda está em banho-maria, volta a haver tempo para se falar de crise, crise essa que desta vez parece ter chegado ao Bloco de Esquerda. Ana Drago, uma das carinhas larocas do partido, deixou de o ser porque, segundo a própria, são mais as divergências do que as convergências.

Bom, Ana lá terá as suas razões para abandonar o barco. Não deixa de ser curioso que alguém com o seu sobrenome o faça, pois rapidamente poderia fazer aqui um trocadilho com dragar a areia das águas onde o BE há muito encalhou. Na verdade, Ana Drago atirou-se à água para rumar a terra. No entanto, se nos transportes marítimos a coisa não parece fiável, nos terrestres não está melhor.

Pensemos no sistema político nacional e comparemo-lo ao trânsito. O governo pode figurar numa rotunda, ou não fosse Fernando Ruas um convicto laranja. Facto é que o executivo entrou numa roda – houve quem lhe chamasse espiral – e tem sido difícil encontrar saídas. Assim, Passos limita-se a fazer o que eu próprio fazia nas minhas aulas de condução quando o instrutor lia o jornal e não me dizia nada: andar às voltas. Por sua vez, o Partido Socialista quer fazer a rotunda pela esquerda mas, como se não fosse já problema suficiente andar em contramão, nem sabe qual a via a tomar: se a interior, onde circular parece mais seguro, ou se a mais junto à orla da referida rotunda, como quem anda junto à costa, e quem se meter à frente leva.

Depois temos o Partido Comunista Português, que prefere semáforos a rotundas, porque assim estaria sempre vermelho para os pesados – grupos económicos e financeiros – e verde para os ligeiros – trabalhadores. Mas o trânsito em Portugal tem de ter sempre um senhor guarda, vestido de azul, a fazer que controla tudo o que passa. É aqui que encaixa o CDS: barrigudo e sem se querer meter em chatices, por ele está tudo bem desde que lhe seja garantida uma gratificação sob a forma de lugar no governo.


No meio desta azáfama, resta o Zé Povinho, sem carro, que ganha a vida a vender cestos de vime na berma da rotunda. Raramente tem clientes, apesar de todos os dias ver passar altos bólides. O problema é que só costumam parar de quatro em quatro anos e, mesmo nessa altura, não é para comprar: apenas fazem promessas. Que amanhã estarão ali mesmo, faça chuva ou faça sol, para comprar montes de cestos. E o Zé, como a Ana Drago, vê mais divergências do que convergências mas, ao contrário dela, não pode fugir. Afinal, está encalhado em terra e sem água à vista. Coisa pouca.

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