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A noite que era minha

Eu e a noite estamos zangados. Esta é a verdade. Nunca mais saímos juntos até fugirmos os dois do dia para a minha cama, até nos abraçarmos um ao outro à espera que ela acorde de novo e possamos ir dar mais uma volta pela cidade.
A noite deixou-me e eu não sei porquê. Sempre lhe fui fiel, sempre a respeitei e estive sempre lá quando ela chamou por mim. A noite e eu éramos um só, brilhávamos ao luar como uma tiara de diamantes. A noite merecia essa tiara e eu era a pessoa certa para lha dar.
Eu e a noite estamos de costas voltadas. Por mais que eu a chame, por mais que eu lhe bata à porta, enfrentando o frio e o vento – algo que nunca foi impedimento para nós - , ela não responde, ela não está lá. Ela não brilha mais como dantes, pelo menos para mim.
Acho que a noite tem outro. Primeiro não queria pensar que isso fosse possível. Achava que tínhamos sido feitos um para o outro, que era com ela que ia ficar para sempre e que o escuro era uma das nossas cores favoritas, uma das nossas cores…

Tempo para amanhã

É naqueles dias em que o calor aperta que mais precisamos de ar fresco. Por mais bonito que esteja o quadro do horizonte com um sol radiante, a verdade é que toda aquela luz nos sufoca como se algo se enrolasse à nossa volta e apertasse.
Apertasse o nosso peito, apertasse tanto o nosso peito que teríamos os pulmões colados às costas e nos seria difícil respirar. Afinal, trata-se disso: respirar. Não há dinheiro que pague um ar fresco pela manhã. Não há balão suficiente no mundo onde caiba todo o ar que precisamos. Não há um espaço definido para os braços que abrimos em duas direções opostas.

É naqueles dias de calor que temos mais frio. É nesses momentos ofegantes que mais precisamos do abraço de alguém, que mais vivemos a distância, que mais sentimos a ausência. É aí que o tal calor passa a gelo e os raios de sol se transformam em neve pura e dura, vasta e imensa.
É nesses dias cerrados que colocamos no ar aquela música que nos leva longe, que nos faz baixar a cabeça entre os ombr…

LUZ - 3.A barreira

A rotina fazia jus ao nome: igual todos os dias. Os primeiros tempos a acompanhar Luz ainda envolviam alguma confusão – era comum chamar-lhe Andreia – mas a verdade é que, sem me dar conta, começava a envolver-me naturalmente na causa. Entreguei a minha vida por completo ao projeto. Deixei de ter tempo para copos, namoradas e até família. Ligava aos meus pais, alimentando uma história desinteressante mas funcional, de uma empresa de recursos humanos que me contratara e obrigara a mudar para longe.
Sem entrar em demasiados pormenores, o dia começava com uma reunião em que eram debatidas as atividades a realizar na jornada. Por vezes, sentia-me mesmo na tal empresa de recursos humanos, ao chegar, pendurar o casaco e cumprimentar os colegas. Mas a todo o instante algo me fazia lembrar que não era bem assim. Os procedimentos de segurança para entrar no Edifício (assim chamávamos a nossa “base”) contemplavam tecnologias que eu adivinhava daqui a 50 anos. Pois bem, ali estavam elas à frent…

LUZ - 2."Nós não vamos. Ela vai"

É estranho para quem está de fora compreender como toda uma estrutura gira em torno de uma só pessoa. Éramos centenas, cada um com um papel a desempenhar na vida de Luz. Atrevo-me a dizer que a comum Andreia foi, de longe, o ser humano mais vigiado, condicionado e encaminhado neste planeta, e ainda assim completamente livre na sua liberdade fabricada. Os anos foram passando, Luz crescendo e a equipa mudando. Os anos também passaram por mim e vi entrar e sair muita gente do projeto. Fui escalando na hierarquia das idades, dei uma última palmada nos mais velhos que se retiraram e interroguei vigorosamente os recém-chegados. Gostava de todos e, afinal, foram o que tive de mais parecido com família.
É o momento de vos falar de mim. Com uma vida banal até aos vinte e poucos, uma noite de copos na universidade mudou tudo. Copos sim. Sempre consegui conciliar a diversão com o estudo e era frequente perguntarem-me como o fazia. Voltando àquela noite, estava à espera dos amigos de sempre no b…

LUZ - 1. Génese

Todos ouvimos um dia qualquer coisa como “não tenhas medo”. Essa parecer ser uma lei universal, um nirvana a atingir, uma paz infinita pela qual devemos batalhar. Também nós pensámos assim, mas numa escala diferente. Se me perguntassem hoje, diria que tudo não passou de uma ilusão. Mas, afinal, o que move o homem senão o sonho?
O meu nome é James Grikol e esta é a história de Andreia. Como todas as histórias fazem, também eu tento com ela mostrar algo. Acima de tudo, quero que todos saibam a heroína que esta mulher foi, a mãe que foi exemplo para todas as outras, o ser humano manchado pela crueldade de quem se acha superior ao semelhante.
Sabíamos tudo sobre Andreia desde a primeira vez que respirou. Na verdade, já a conhecíamos antes de nascer e até de ter um nome definido. Antes de ser Andreia Gomez, já por nós era tratada por Luz, designação pensada simbolicamente. Luz – ou Andreia, como preferirem, eclodiu de um amor como tantos outros, entre uma mãe portuguesa e um pai porto-riq…

Luz

Deitada na marquesa ao centro da câmara, esperava pelo início do teste. Recordava certamente o facto de ter sido escolhida entre milhares para esta experiência; como a sua vida mudara nos últimos dois anos; as caras deliciosas dos seus três filhotes; o hospital onde era médica nas urgências; os dois milhões que foram depositados na sua conta. Fora espiada desde o nascimento, eram-lhe conhecidas todas as rotinas. A personalidade foi minuciosamente dissecada e estudada. Pontualmente foi sendo testada e orientada, sem saber, para situações tensas e perigosas. Uma marioneta que, apesar de tudo, respondeu de forma notória às dificuldades que a vida – uma mentira pegada – lhe trouxe.


Esta é a história de Luz (Andreia Gomez), uma mulher escolhida para ser cobaia de uma humanidade obcecada em ultrapassar o Medo Absoluto. Para acompanhar a partir de hoje, aqui, no Digo-te.