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Mensagens

Ponteiros

Faz amanhã uma semana que terminou uma outra que promete não me sair da cabeça tão facilmente. Há muito tempo, há muito tempo mesmo que as coisas más não se sobrepunham às boas. Há muito, muito tempo que não desejava que ele, o tempo, andasse mais rápido. Normalmente queixo-me da sua falta, mas naquela semana decidiu parar várias vezes. E eu parei com ele. Parei com coisas de amigos, com coisas de família, com coisas minhas e, finalmente, com as coisas de Paris. Foram demasiadas paragens, “stand by” a mais, um trânsito infernal que esgota qualquer um. E, uma semana depois, sinto-me finalmente a chegar a casa, depois de andar uma eternidade à procura de lugar. Descalço-me e sento-me no sofá a ver como anoitece cedo por estes dias. Dou por mim a recordar-me de outro sol, a outras horas, noutros olhares. Sei que isto faz tudo parte, que serve para nos pôr à prova. Sei que amanhã vão ser outra vez 20 horas, o metro vai estar apinhado e o telemóvel vai tocar. Sei que o rio vai corr...

Mais espaço

Sempre fui desarrumado. Preferi sempre ter as coisas à vista para que fosse mais fácil aceder-lhes quando preciso, como quem guarda as emoções à flor da pele para que as sinta de imediato. Há vantagens e desvantagens, mas uma coisa é certa: o espaço não é infinito. E quando acaba? Por vezes, lá nos decidimos e distribuímos as nossas coisas por gavetas, armários, caixas debaixo da cama ou na despensa. No entanto, chegamos a uma altura em que não cabe mais nada, em que não temos capacidade de encaixar nem mais uma agulha nesse palheiro de desorganização organizada. E o que fazer quando as coisas continuam a chegar até nós, quando nos dão ainda que não tenhamos pedido? Há duas soluções, e qual delas a mais difícil… A primeira é arranjar uma nova gaveta, um novo sítio. Comprar um armário novo, uma estante, um fiel depositário em quem possamos confiar as nossas memórias. Ora, para vocês não sei, mas para mim é muito complicado. Desde logo o investimento necessário: um móvel cust...

O primeiro

Vou ser o mais direto possível: dá-me um beijo. É simples, um beijo. Não tenho mais nada para te pedir. Não estou a dizer que isto vai mudar alguma coisa, mas vês alguma razão para não o fazeres? Sei que o encostar de lábios não acaba com a fome, não impede a guerra nem faz chover dinheiro. Mas sei também – tenho a certeza – que os teus encaixam perfeitamente nos meus. Sei ainda que não estás longe de pensar o mesmo e sei, principalmente, e por fim, que precisamos disto. Precisamos de um primeiro beijo, sabes? Pode até ser o primeiro e o último, mas todas as obras começam pela primeira pedra. E para haver um último, tem de haver sempre um primeiro! Não digo que seja o ponto de partida para algo, é antes uma necessidade que temos de suprir. O primeiro beijo é como escrever numa folha em branco. Pouco importa o que vai sair dali, interessa é tirar o vazio daquela folha e dar-lhe vida. Fazê-la ser algo, criar matéria neste mundo. O primeiro beijo fica para sempre na memória: ...

Tudo a nu e fé no eleitorado

Em tempo de eleições são poucos os debates que tenho visto, pelo menos em direto, por motivos profissionais. A box permite andar para trás mas as discussões sobre quem trouxe a troika são tão enfadonhas que, mesmo perante a sexy Ana Lourenço, acabo por desistir e entregar-me à minha cama de corpo e alma. Há, no entanto, um programa televisivo que me agarrou pela madrugada dentro e no qual os nossos políticos encaixavam tão bem como o corno de um toiro na nádega de um toureiro. Chama-se Aventura à Flor da Pele (Naked and Afraid no original), é transmitido no Discovery Channel e consiste num homem e numa mulher que são largados num destino inóspito, sem comida, água nem roupa, tendo de sobreviver durante 21 dias. Pelo que sei podem apenas levar numa bolsa um objeto escolhido por si. Ora, não vejo desafio mais propício aos cinco líderes dos chamados partidos do arco da governação. A primeira dupla seria a mais óbvia: Passos e Portas. Ambos dormiriam agarradinhos um ao outro como o f...

Mudamos tudo

Mudamos tudo, já reparaste? Mudamos isto, mudamos aquilo. Mudamos tudo, como te disse. Já viste como mudamos todos os dias? Mudamos a maneira de falar, mudamos a forma de ver as coisas, mudamos o aspeto. Se a alma dói ao mudar, mudamos a noção de dor. Mudamos o sorriso, mudamos o aperto de mão, mudamos o abraço. Sentiste? Mudamos os móveis de sítio para mudarmos o nosso pequeno mundo, mudamos de canal para ver o que queremos e não o que de facto existe. Mudamos o fundo do telemóvel porque aquele já não faz sentido, mudamos precisamente o sentido do que antes era inalterável mas que agora não resistimos a mudar.  Mudamos de carro para os vizinhos verem, mudamos de casa porque estamos fartos deles, mudamos de copo porque este está rachado. E quando as coisas estão rachadas mudam-se, não é? Repara como mudamos o tom a cada dia, como mudamos as palavras que dirigimos um ao outro. Mudamos de direção porque o vento sopra para ali, mudamos de médico porque este diz-nos que...