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Mensagens

Zero absoluto

Não avances. Não cabes deste lado. Será que tenho de repetir? Imagina que entre nós há um vazio profundo. Um poço de veneno, um fosso de criaturas sedentas de sangue. Quem és tu para quereres atravessá-lo? Quem te julgas para chegares a mim? Vais ficar-te por aí, esmagado, vergado, sufocado pela negação. Não me tocas, não me atinges, não me cegas. Cego és tu que não vês o limite, que não sabes a diferença entre o meu poder e a tua insignificância. Não podes nada, não vales nada, não és nada. Pensa por um momento – se fores capaz – que não podes lutar contra o destino. Que tu ficas desse lado como os cães ficam à porta, que não passas de um sem-abrigo esfomeado com quem até os pombos gozam. Tens a altura de uma formiga e a força de uma pulga. Nota-se que o teu sonho era morderes os calcanhares de algo, mas para isso terias de olhar para cima. Não consegues nem sabes fazê-lo. Estás condenado a rastejar na terra, na lama, na podridão do que és. Fundes-te com o lixo, unes-te c...

Pulos de Coelho

Vi ontem a entrevista de Pedro Passos Coelho na SIC com José Gomes Ferreira. Calma, não se vão já embora que este não é um texto sobre política. Pelo menos sobre política pura e dura. Fiquem mais um pouco que eu não demoro muito. Vou apenas opinar sobre a maneira como falou o nosso primeiro-ministro. Há grandes comunicadores entre os políticos portugueses – é um facto. Paulo Portas é um deles, José Sócrates é outro e até Durão Barroso parece ter andado a ter aulas com os outros dois. Serve isto para dizer que Passos Coelho ainda não está à altura dos citados, embora esteja a fazer progressos. Quem viu o líder do PSD quando estava na oposição e quem o vê agora. Mais velho, mais anafado, mais – sem qualquer tipo de trocadilhos – seguro. Estava Gomes Ferreira a fazer-lhe perguntas diretas e eu, na minha bela maneira irritante de antecipar tudo, a tentar adivinhar como ia responder. Coelho lá foi adiando a resposta inevitável, até ao momento em que me fez rir. E convenhamos que nã...

Desalinhado

Aos primeiros raios de sol já eu lavava os dentes. Olhava para minha cara afogada em sono, sempre a mesma coisa. Uma vista de olhos às horas, um último exercício de memória para ver o que me falta. Sendo que do que me falta vou eu em busca. Começo a despertar. Já há pessoas na rua, compram o jornal, tomam o café da manhã, seguem para as aulas, regressam a casa depois de uma noite intensa. Entro no metro que pareceu esperar por mim. Vejo as horas novamente: 10 minutos para o comboio. Tempo de mandar um bom dia para o outro lado. Na estação, de olhos no ecrã como se fosse uma janela para um oásis qualquer, vejo o número da linha. Entro e procuro o lugar que me vai levar ao meu lugar. Ouço aquela voz eletrónica a anunciar cada paragem, cada ponto que nos separa, cada barreira. São muitas sim, mas sei que não me podem parar porque também ouvi o destino: tu. Tento fechar os olhos para ver se engano a mente, para ver se tudo passa mais rápido, mas vejo-te em todo o lado, seja no...

Quem disse que para a frente é que é caminho? Encontrem-me o sacana e tragam-mo vivo, que temos de ter uma conversa séria. Os miúdos aprendem isso em pequenos, os carrinhos andam para trás. De facto, as pessoas são como os carros: se não recuarem, como é que dão a volta? A coisa é simples: ninguém gosta de ceder. Seja numa discussão, num braço de ferro, num jogo de damas ou no trânsito. Não faz parte da nossa natureza, pronto! Temos instinto competitivo e dar a outra face soa absolutamente a derrota. Pois oiçam, amigos, que o seguinte momento é bem capaz de ser o mais filosoficamente barato de todo o texto: saber recuar no momento certo é meio caminho andado para seguir em frente. Vá, parem lá com isso que me estão a deixar envergonhado, foi só uma frase bem articulada. Mas totalmente verdadeira. Reparem que duas linhas paralelas nunca se vão tocar até que uma delas ceda. Vejam que o presidente da Ucrânia teve de abalar se queria continuar entre os vivos. Notem que Jorge Jesus...

Memorando

Uma pessoa que fosse a nossa própria memória. É isso, leram bem. Todos temos direito a vaguear um bocado pelo imaginário de vez em quando e agora é a minha vez. Se há coisa em que não sou bom – e, como sabem, são muito raras – é em memória. Não me lembro de coisas que fiz ontem e nem sequer bebi. Ou se bebi… não me lembro. Mas onde eu quero chegar é ao seguinte: a memória acarreta demasiada responsabilidade para uma só pessoa. Já temos tanto com que nos preocupar neste mundo de tolinhos que resta pouco tempo, espaço e paciência para ir armazenando o nome daquela miúda, o pin do telemóvel, o aniversário de namoro ou o resultado do Benfica-Sporting de 1997. A memória é algo complexo, difícil e muito trabalhoso. Não admira que cada vez registemos mais informação em fotografias ou textos. Afinal, toda a memória humana é volátil e está condenada a desaparecer. Ora, é chegada a hora de vos apresentar a minha solução de hoje. Ou melhor, apresentei-a logo no início. Devia haver ...