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Zero absoluto

Não avances. Não cabes deste lado. Será que tenho de repetir?

Imagina que entre nós há um vazio profundo. Um poço de veneno, um fosso de criaturas sedentas de sangue. Quem és tu para quereres atravessá-lo? Quem te julgas para chegares a mim?

Vais ficar-te por aí, esmagado, vergado, sufocado pela negação. Não me tocas, não me atinges, não me cegas. Cego és tu que não vês o limite, que não sabes a diferença entre o meu poder e a tua insignificância. Não podes nada, não vales nada, não és nada.

Pensa por um momento – se fores capaz – que não podes lutar contra o destino. Que tu ficas desse lado como os cães ficam à porta, que não passas de um sem-abrigo esfomeado com quem até os pombos gozam. Tens a altura de uma formiga e a força de uma pulga. Nota-se que o teu sonho era morderes os calcanhares de algo, mas para isso terias de olhar para cima. Não consegues nem sabes fazê-lo. Estás condenado a rastejar na terra, na lama, na podridão do que és. Fundes-te com o lixo, unes-te com os vermes. E como eles, és pisado por tudo e por todos.

Como é possível não percebes o desnível, tal é o seu tamanho? Não és capaz de arranhar manteiga, tresandas a derrota por todos os poros, fazes parte dos fracos dos quais não reza a história. Sabes o que é história? É algo que nunca poderás construir nem sequer entender. Não existes, não tens marca neste mundo nem em nenhum outro. Rende-te ao esquecimento, à vergonha, ao escuro. Até o negro é demasiado colorido e mal-empregado para ti.


Poupa-me trabalho, cala-te de uma vez, mas por favor não te apagues. Tudo o que morre deixa saudades a alguém e o mundo não ia saber reagir à primeira exceção. 

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