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Mensagens

Texturas

Nunca como hoje as pessoas estiveram tão perto. As distâncias que antes eram maiores do que o possível são agora risotas nas histórias do passado. Ir de Bragança ao Algarve passou a ser só isso, Bragança ao Algarve, e não uma viagem do outro mundo. As despedidas no aeroporto continuam a doer, mas quando antes queríamos que o voo se atrasasse por mais uns minutos, agora queremos que ele chegue rápido ao destino, para que o telefone nos una de novo. O facebook, o skype e todas essas coisas. Ainda assim, há sempre algo que se perde. Algo que, por mais sofisticados que sejam os cabos de fibra, por mais voltas que deem os satélites ou por mais gigas que tenhamos por mês, não é possível reproduzir. E isso é tão verdade que seria estúpido referi-lo. Hoje em dia parece ser estúpido reafirmar algo que seja uma verdade absoluta, que toda a gente saiba, mas que tem medo, vergonha de expressar. E é por isso que não dizemos todos os dias que temos saudades disto e daquilo, deste e daquela. ...

Pesos e medidas

Há uns dias passei pelo Jumbo e deparei-me com uma – na minha opinião – excelente ideia: o cliente pode agora comprar a granel. O que quer. Ao peso. Nem mais, nem menos do que aquilo que precisa. Com licença, desculpem, deixem agora passar o filósofo que há em mim e sentem-se, que isto é capaz de demorar. A coisa é simples: preciso de 138 gramas de arroz. Chego, encho um saquinho, peso, pago e venho-me embora. É tão simples que até o famoso Gervásio ia perceber esta. O que propunha era que Deus, que sei que me está a ouvir, adotasse o mesmo sistema neste mundo. Uma adoção simples, sem direito a referendo nem nada dessas mariquices. Salvo seja. Vendo bem as coisas, tudo na nossa vida vem nas proporções erradas. Ou vem sempre a mais, ou vem sempre a menos. Já diz o ditado: o apressado come cru, o atrasado come frio. Eu cá prefiro as coisas quentes. E não estou a falar daquele fim de tarde (ou noite) em Ibiza. Ia, portanto, no pedido a Deus. Queremos calor para ir à praia, El...

As calças

Não faço ideia do termo técnico. Mal percebo de roupa de homem, quanto mais de mulher. Mas da mesma maneira que me queixo se uma abelha me pica, também não posso ficar calado com aquele par de calças. Sim, este é um texto sobre – e só sobre – um par de calças. Estúpido? Muito. Eu explico: noite, bar, ela. Situados? Vamos às calças então. Pretas, e de que maneira. Todos aqueles flashes das luzes, todas aquelas intermitências esbarravam naquelas calças pretas como tordos num vidro. E ainda assim, davam bem nas vistas. Não sei se era esse o objetivo mas chamaram-me de imediato a atenção. E nem era pela maneira como se moviam, que a música até estava mais para se cantar do que outra coisa. Mas coisa era o que havia ali. “Aqui há gato” pensei eu. Nunca tive gatos mas sei bem que eles são elásticos e passam baixo das portas como as cartas do correio. Só um superpoder desses podia superar o desafio de passar entre aquelas calças e o que quer que estivesse lá dentro, de tão justas. ...

Luz

Cheguei sozinho. Os seguranças deixaram-me passar e deram-me um cartão colorido, sobre o qual nem perguntei o preço. Não estava ali para falar, muito menos com aquele idiota. O clube estava cheio mas todo aquele calor humano significava zero. Podiam ter olhado todos para mim que não iam ver nada. Afinal, sou invisível para o mundo. Pedi uma cerveja que nem chegou ao bengaleiro. Deixei o casaco e nem obrigado disse ao rapaz. As músicas foram passando ao som da vodka gelada. Mas nada me podia matar a sede e saciar realmente. Estava nervoso. Cravei uma pastilha a uma miúda engraçada que dançava sozinha ao meu lado. Tentou meter conversa mas um sinal de silêncio da minha parte foi suficiente para ela virar as costas. Isso, vai-te embora. És só mais uma, como todo o mundo, de costas para mim. Rapidamente a pastilha ficou sem sabor e eu precisava de mais. O último cigarro caiu-me ao chão quando entrei e até ele foi logo pisado por um imbecil qualquer. Na altura tive uma sensação de ...

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