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Mensagens

Alentejo, Terra Santa

A NASA admitiu há uns tempos que a vida na Terra pode ter começado no Alentejo. Não duvido nem por um segundo que um organismo unicelular tenha escolhido Cabeço de Vide   para despontar para o mundo. A minha dúvida é outra: pode Portugal gerar agora um novo tipo de vida? É disso que todos precisamos, dizem os jornais. De uma vida nova! De renascer das cinzas! Ora se as leis da física foram quebradas há milhões de anos neste jardim à beira-mar plantado, porque não pode aparecer novamente em terras lusitanas uma moderna fonte de vida? Daquelas iluminadas com jatos coordenados entre si como há nas rotundas? Tenho pensado no assunto nas poucas horas que dedico ao ócio e, entre uma ou outra bolacha maria, lá vou desenhando uma nova vida à qual poderíamos facilmente dar um nome histórico. Pensai comigo: vida AT, vida ET, vida DT. Vida AT era a que havia Antes da Troika. Ainda se lembram? Ah como era bom este país... O dinheiro público saltitava entre a Expo98 e o Euro2004,...

Bem-me-cai, mal-me-cai

Não sei o que caiu melhor por estes dias: aquele meteorito na Rússia ou um moscatel duplo com duas pedras de gelo. “Não bebas água por cima do leite que te cai mal” ou “aquela última cerveja de ontem não me caiu bem” são expressões muito comuns por este país fora. E até há outras, agora muito na moda, que roçam o brejeiro: “o que caía bem agora era o Passos Coelho de uma ponte”. De facto, toda a gente arrisca o seu palpite sobre o que caía bem ou mal neste país. Pode dizer-se, em jeito de trocadilho barato, que todos temos queda para a coisa. O governo, por exemplo, pensa que o que caía bem eram as despesas do Estado, mas afinal o que cai – e bem – são as receitas. Já o comum Zé Povinho queixa-se de que os impostos caem mal, quando na verdade queria que estes caíssem, e bem, a pique. No setor económico, e numa altura em que os mercados são tão falados, também as bolsas sofrem com esta expressão. A única coisa que cai bem aos acionistas é quando as suas ações não sofrem qu...

Nem bom vento

Caríssimos, escrevo esta missiva num clima de grave crise. Ou numa crise de grave clima. Pensado bem é mais assim, que esta tempestade lá fora vira tudo ao contrário! Fosse José Castelo Branco apanhado por este vento suão e, não tenho dúvidas, estaria ali um novo Quim Barreiros, expoente máximo da virilidade em Portugal! Recordo com saudade os tempos em que vivia num “jardim à beira-mar plantado”, onde uns bons 35 graus eram capazes de assar uma sardinha no capot do Fiesta parado há nove anos no barracão da lenha. Tempos em que só havia duas estações do ano: verão e natal. E sucediam-se consecutivamente uma à outra, sem atropelos. O único casaco que tinha era estreado na noite de consoada e arrumado a meio de janeiro, tal era o calor que justificava, um mês depois, a reduzida indumentária das meninas do samba. O que aconteceu? O barulho do festival de vento e chuva lá fora é inacreditável! E o pior é que não me posso queixar à polícia desta má vizinhança! Nem riscar-lhes o ca...

À segunda

Já toda a gente disse, já todos os jornais trouxeram, já todos os portugueses perceberam. Portugal não é, neste momento, um país de muitas oportunidades. Mas, como nas pilhas, há sempre um lado positivo: é um país onde abundam as segundas oportunidades! Não perceberam? Vou tentar explicar-me melhor – e cá está, um fabuloso exemplo de uma segunda oportunidade, neste caso para perceberem o que quero dizer! Peço-vos que também vocês me deem uma segunda oportunidade e não mudem já de página. As segundas oportunidades transformam-se, na maior parte das vezes, na oportunidade principal, seja porque correu mal na primeira vez, porque tivemos azar, porque a sangria estava demasiado boa ou, como se diz de há uns anos para cá, estávamos emocionalmente esgotados. Em Portugal, são inúmeros os exemplos de novas oportunidades pedidas ou concedidas, oferecidas ou consentidas, garantidas ou outras palavras acabadas em “idas” que agora não me vêm à cabeça. Na escola, há uma segunda fa...

Vezes dois

Multiplicamo-nos os sentidos, somos o dobro de tudo, duas vezes mais que ontem e duas menos que amanhã. Sombra e sol que se fazem existir mutuamente, que se contrariam e anulam, igualando todas as palavras deste mundo. Somos cores raras, brilhamos no mais negro dos escuros e, ainda assim, iluminamos o caminho de quem acredita, de quem nos segue como exemplo, como força. Força de resistência treinada para sobreviver a ventos semeados e tempestades colhidas, ao estilo do provérbio. Somos a bonança que vem depois e dá de novo lugar ao sol e à sombra, num dueto melódico, digno de esgotar coliseus. Gostamos de gostar de nós e temos razões para isso. Temos duas vezes mais razões que naquele dia. Aprendemos que mais com mais da mais. Essa positividade que nos atravessa tem altos e baixos, como a sombra e o sol. Mas, tal como eles, volta a cada dia porque nada pode impedir a ordem natural das coisas. Esta chama arde e vê-se, não é como aquela outra do poema. Não rimamos, não temos de...