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Mensagens

Beira-Morte

O sangue é tão quente que quase derrete o que resta da linha contínua. É triste. Escorre lentamente para a terra. Tão, tão lentamente como o respirar que se ouve ao fundo. É tão lento. Parece calmo. Como o sangue que escorre de lá para a terra. Ninguém passa, ninguém vê, ninguém sabe, ninguém ouve. Pisca a apaga de vez a última luz. Está escuro. Como o sangue dele que escorre para a terra. Não consegue falar. Uma única palavra que seja. Emite tanto som como o sangue que lhe sai de todo o corpo e escorre para a terra. Cheira a qualquer coisa. A gasolina jorra aos soluços do depósito, como o sangue que por baixo do luar se vai acumulando na terra. Misturam-se. Combustíveis de homem e máquina, incompatíveis como homem e máquina, frágeis como homem e máquina, que abandonam agora homem e máquina às suas sortes, aos seus azares, ao seus desnortes, às suas mortes. Há cortes na árvore cá atrás. A seiva escorre no escuro, lentamente, qual sangue gasolina, até à terra que a há de com...

Almoço de família

Há três coisas que acredito piamente que nunca acabarão em Portugal: 1 – o Benfica 2 – o Preço Certo 3 – os almoços de família                 Deixando o Benfica e o Preço Certo de lado, falemos pois do terceiro item, também ele um muito popular como o primeiro, e onde quem manda é o mais gordo, como o segundo.                 Eu gosto dos almoços de família e acho que todos os portugueses também. E desde logo porque ocorre no timing exato. Caso se tratasse de um pequeno-almoço, jantar, ou mesmo uma bucha, um mata-bicho, um lanche, uma ceia, uma merenda ou simplesmente uma “peça-de-fruta-a-meio-da-manhã-que-faz-muito-bem-àquele-colesterol-mau-que-ainda-na-semana-passada-estava-quase-a-300” de família, não seria a mesma coisa.                 Até ...

"Isto já não é o que era!"

Diz o idoso quando está com uma moça meio século mais nova. Diz o meu pai ao ver a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. Dizem os emigrantes portugueses do Luxemburgo. Dizem os fãs dos Metallica. Diz a namorada prestes a acabar com o pobre rapaz. Diz Schumacher na Fórmula 1. Diz Miguel Relvas sobre o ensino superior. Dizem os estudantes na Queima das Fitas. Dizem os antigos nas festas da terra. Dizem os homens sobre a Angelina Jolie. Dizem os ursos polares sobre a Gronelândia. Dizem os amantes do Fado. Dizem os moradores do Cacém. Diz o turismo do Algarve. Diz o visitante da Feira de S. Mateus. Dizem os putos sobre os Morangos. Diz o ancião sobre o estado do tempo. Diz Zé Pedro recuperado dos vícios. Diz a ASAE enquanto fecha o estaminé. Dizem os comerciantes tradicionais. Diz Carlos Cruz ao ver as “suas” crianças já crescidas. Dizem os pescadores. Diz um guia turístico no Ground Zero. Di...

Pergunta:

Qual dos seguintes acontecimentos é mais provável observar em Portugal? Justifique. a) Relvas a cortar anos durante a licenciatura. b) Licenciados a cortar relvas durante anos.

Em ti

Estou deitado, de mãos entrelaçadas atrás da cabeça. Se alguma luz houvesse neste quarto, era possível ver os meus dentes, os meus olhos, enfim, a minha cara. Não há luz, não se reflete a luz. Mas reflete-se a felicidade. Estou feliz sim. E muito. Vê-se nos meus dentes, nos meus olhos, enfim, na minha cara. Feliz pelo que sinto, e sei que sinto. Passa-me do coração à cabeça, e volta novamente. São voltas descontroladas pela velocidade da batida, pelo calor do sangue, pelo sorriso com que os dias me acenam por esta altura. De facto, se houvesse luz, talvez conseguisse ver a minha própria imaginação, onde o aroma que tens dança ao meu redor, ora calma, ora desenfreadamente, para delírio das minhas mãos que teimam em abraçar-te mais e mais. És tu. És tu mesma. A chave daquele cadeado que cerca as minhas emoções. Consegues libertá-las, consegues sê-las. E num ápice, passam em fila na minha mente fotos nossas, nas quais estamos incrivelmente juntos, colados, unidos, eu a ti e ...