Avançar para o conteúdo principal

Em ti


Estou deitado, de mãos entrelaçadas atrás da cabeça. Se alguma luz houvesse neste quarto, era possível ver os meus dentes, os meus olhos, enfim, a minha cara. Não há luz, não se reflete a luz. Mas reflete-se a felicidade. Estou feliz sim. E muito.

Vê-se nos meus dentes, nos meus olhos, enfim, na minha cara. Feliz pelo que sinto, e sei que sinto. Passa-me do coração à cabeça, e volta novamente. São voltas descontroladas pela velocidade da batida, pelo calor do sangue, pelo sorriso com que os dias me acenam por esta altura.

De facto, se houvesse luz, talvez conseguisse ver a minha própria imaginação, onde o aroma que tens dança ao meu redor, ora calma, ora desenfreadamente, para delírio das minhas mãos que teimam em abraçar-te mais e mais.

És tu. És tu mesma. A chave daquele cadeado que cerca as minhas emoções. Consegues libertá-las, consegues sê-las. E num ápice, passam em fila na minha mente fotos nossas, nas quais estamos incrivelmente juntos, colados, unidos, eu a ti e tu a mim. E as fotos ultrapassam-se umas às outras como se estivessem numa via rápida, rumo a um destino marcado pelo sabor intenso e apaixonado. Pela direita, pela esquerda, interessa é passar, é chegar, é mostrar-se. Interessa é marcar este e aquele momento, em que estamos bem. E como eu gosto de estar bem. Como eu gosto de pensar no que vamos repetir, em tudo o que ainda temos, em tudo o que ainda falta. Como eu gosto de pensar que ainda nos sobram uns anos, uns dias, uns segundos. Como eu gosto de pensar que ainda estás aqui.

Como eu gosto de pensar que ainda não te larguei desde que vim embora.

Comentários

Os mais vistos do momento

... É incrível o poder desta cidade. Poder vir para cá o mais devastado possível. Poder sentir-se a pior pessoa do mundo. Até poder sê-la. Mas mudar tudo quando se chega aqui. Coimbra é quase como a ilha da série Lost, que tudo cura e onde tudo acontece. E quem não gosta de se perder aqui? De sentir, de provar, de viver a cidade? Ou aqueles banhos de imersão no filme Wanted. É disso que eu falo. Da capacidade de curar em horas aquilo que, fora daqui, demoraria dias ou meses. Esse é o efeito Coimbra. Presente nas tardes de sol, no espírito académico, nas festas e na noite, mas também nos amigos, nos momentos menos bons, nossos e deles, e nas noites frias e chuvosas. Tudo ajuda, tudo faz parte. As marcas que levamos daqui, duvido que algum dia deixem de se ver. Da mesma maneira que não me imagino a estudar noutra cidade, também não consigo encaixar a ideia de ter de sair daqui no final do curso. Mas vai acontecer. E nesse dia, como nunca, vamos perceber finalmente o poder do fado, sentir...

Clave de sol

Um círculo vermelho. E tu no meio. É assim, tão simétrica, a nossa existência. Não fosse o rock’n’roll assolar-me os ouvidos, não fossem os velhos e bons Stones ditarem o ritmo, e era nas tuas curvas que leria a pauta. Autêntica clave, mais forte do que o sol, com mais classe do que a lua. Se nas veias o sangue corre sempre em frente, na cabeça o pensamento diverge sobre todos os caminhos a tomar para chegar a ti. Somos o mapa de nós mesmos, já criámos até um caminho novo, que ninguém tinha previsto e que ninguém percorrera antes. Sem indicações, lá seguimos viagem, cientes de que 2+2 só são quatro se quisermos. Liberdade completa, foi também para isto que Abril nasceu. Existimos em todas as línguas, somos vistos em todos os gestos. Não é preciso explicar a ninguém, porque ninguém ia entender. E, no entanto, entendem-nos desde o princípio. Não fomos feitos um para o outro. Não somos o testo da panela, não encaixamos como Legos, nem temos penteados à Playmobil. Mas a forma como enco...

Pulos de Coelho

Vi ontem a entrevista de Pedro Passos Coelho na SIC com José Gomes Ferreira. Calma, não se vão já embora que este não é um texto sobre política. Pelo menos sobre política pura e dura. Fiquem mais um pouco que eu não demoro muito. Vou apenas opinar sobre a maneira como falou o nosso primeiro-ministro. Há grandes comunicadores entre os políticos portugueses – é um facto. Paulo Portas é um deles, José Sócrates é outro e até Durão Barroso parece ter andado a ter aulas com os outros dois. Serve isto para dizer que Passos Coelho ainda não está à altura dos citados, embora esteja a fazer progressos. Quem viu o líder do PSD quando estava na oposição e quem o vê agora. Mais velho, mais anafado, mais – sem qualquer tipo de trocadilhos – seguro. Estava Gomes Ferreira a fazer-lhe perguntas diretas e eu, na minha bela maneira irritante de antecipar tudo, a tentar adivinhar como ia responder. Coelho lá foi adiando a resposta inevitável, até ao momento em que me fez rir. E convenhamos que nã...