Avançar para o conteúdo principal

Luís Simões – um homem de L a S, mas que por vezes veste XL (parte IV)


"Quero ir para casa!"
Foram muitas as vezes que disse isto para os meus botões durante os primeiros dias no 5º ano. A entrada para o ciclo foi dura, muito mais do que a própria saída, algumas vezes feita por entre as grades mais afastadas daquela prisão amarela, porque o meu cartão de estudante dizia num vermelho bem vivo: IMPEDIDO, como quem diz: "ficas aí dentro até às 18h que te f.....!". A minha triste sina haveria de mudar no 6ª ano, em que lá consegui obter um brilhante CONDICIONADO PARA ALMOÇO, o que já me permitia vir ao café comprar umas gomas que me dessem cabo dos dentes. Estes dois anos passaram bem depressa! Aaaah, tenho saudades dos tempos em que jogava futebol atrás dos balneários, quase sempre à baliza por indicação dos colegas. Mas nunca vi isto como uma forma de me dizerem que não jogava patavina! Encarava antes como um voto de confiança. Afinal, um guarda-redes tem muitas responsabilidades! Também tenho saudades dos tempos de aprendizagem com um dos meus tutores daqueles tempos, de seu nome Pilecas. Grande parte da insanidade mental que detenho provém daquele ser. De resto, não há assim grande coisa a registar do ciclo, tal como o meu professor de moral não chegou a registar na minha caderneta, aquela verde em que se davam os recados para casa, numa aula mais agitada... Felizmente não a levei nesse dia (disse eu, claro!).

Lá fui para o liceu, na esperança de uma melhor qualidade de vida, como quem emigra para a terra do Tio Sam à procura de petrodólares! E encontrei pequenos tesouros, sim! A minha professora de francês do 7º era uma autêntica jóia mas também se zangava! Dei conta disso num dia em que, bem cá do fundo, escapou-se-me uma borracha das mãos em direcção a uma amiga lá da primeira fila. Mas porque é que os putos de 13 anos não devem pegar em armas? Hum? Exacto, por causa da péssima pontaria. E pumba, nos cabelos negros e encaracolados da prof. que estava a escrever no quadro. E olhem que naquele momento já não me pareceu tão querida!
Mas lá sobrevivi, e graças a ela, até tive a oportunidade de ir uma semana a Nice, na costa francesa, com o Carlos, um amigo novo para mim, e as meninas Joana e Sílvia, essas talvez demasiado velhas na altura! Enfim...
Mas no que toca a situações caricatas com professoras, houve mais! Certo dia, a bonita professora de Física e Química confiscou-me uma das minhas melhores obras de arte de todos os tempos! Nada mais, nada menos, que a reprodução fiel em desenho de um pintaínho, fofinho e pequenino. Sucede que era incrivelmente parecido com um que ela tinha estampado na sua camisola, mesmo na parte entre o umbigo e o pescoço...

O liceu trouxe também novos elementos à turma: os repetentes! O Bubbles, o Peles, o Bófia, o Stitos, o Bóris, o Freitas, tudo nomes de pessoas sábias nas suas atitudes, que influenciaram e moldaram a minha personalidade, como um padeiro molda o seu pastel de Tentúgal. Foram grandiosos anos de grandiosas gargalhadas que me iam saindo caro. Devido à suposta distracção e brincadeira em demasia, tive de enfrentar a ameaça da minha mãe de me mudar de escola para outra cidade! Bem, se calhar até tinha sido bom e eu hoje era um Senhor! Ou então um Senhor... da droga! Ao menos convivia com Senhoras da droga, que são mais ou menos como as bruxas! Um: São donas de poções incríveis! E dois: não acredito nelas, mas que as há, há, que eu já as vi naqueles filmes da TVI em que estão à volta de um indivíduo latino, de bigode, a fumar um charuto.

No final do 9º ano, faria a primeira decisão sobre o meu caminho. Que área ia eu escolher para prosseguir os estudos? Tinha de ponderar bem! E que melhor momento para tomar uma decisão destas do que o intervalo das 10 da manhã, com um panique de chocolate nas mãos? Naquele momento decidi(mos) que o melhor para mim (nós) seria escolher o caminho das ciências! Venha a biologia que a gente gosta! E assim foi... [continua na parte V]

Comentários

Anónimo disse…
Para ja tiveste sorte que te mudaram o cartao para condicionado....eu tive-o sempre a vermelho aka impedido.....

ah e isso de ir para a terra do tio sam a procura de petrodolares ofendeu-me!!!!!

AHHHH E EU TAMBEM DETESTEI O CICLO!


quanto a prof de frances e de fico-quimica.... um grande LOL!

Joana

Os mais vistos do momento

... É incrível o poder desta cidade. Poder vir para cá o mais devastado possível. Poder sentir-se a pior pessoa do mundo. Até poder sê-la. Mas mudar tudo quando se chega aqui. Coimbra é quase como a ilha da série Lost, que tudo cura e onde tudo acontece. E quem não gosta de se perder aqui? De sentir, de provar, de viver a cidade? Ou aqueles banhos de imersão no filme Wanted. É disso que eu falo. Da capacidade de curar em horas aquilo que, fora daqui, demoraria dias ou meses. Esse é o efeito Coimbra. Presente nas tardes de sol, no espírito académico, nas festas e na noite, mas também nos amigos, nos momentos menos bons, nossos e deles, e nas noites frias e chuvosas. Tudo ajuda, tudo faz parte. As marcas que levamos daqui, duvido que algum dia deixem de se ver. Da mesma maneira que não me imagino a estudar noutra cidade, também não consigo encaixar a ideia de ter de sair daqui no final do curso. Mas vai acontecer. E nesse dia, como nunca, vamos perceber finalmente o poder do fado, sentir...

Clave de sol

Um círculo vermelho. E tu no meio. É assim, tão simétrica, a nossa existência. Não fosse o rock’n’roll assolar-me os ouvidos, não fossem os velhos e bons Stones ditarem o ritmo, e era nas tuas curvas que leria a pauta. Autêntica clave, mais forte do que o sol, com mais classe do que a lua. Se nas veias o sangue corre sempre em frente, na cabeça o pensamento diverge sobre todos os caminhos a tomar para chegar a ti. Somos o mapa de nós mesmos, já criámos até um caminho novo, que ninguém tinha previsto e que ninguém percorrera antes. Sem indicações, lá seguimos viagem, cientes de que 2+2 só são quatro se quisermos. Liberdade completa, foi também para isto que Abril nasceu. Existimos em todas as línguas, somos vistos em todos os gestos. Não é preciso explicar a ninguém, porque ninguém ia entender. E, no entanto, entendem-nos desde o princípio. Não fomos feitos um para o outro. Não somos o testo da panela, não encaixamos como Legos, nem temos penteados à Playmobil. Mas a forma como enco...

Pulos de Coelho

Vi ontem a entrevista de Pedro Passos Coelho na SIC com José Gomes Ferreira. Calma, não se vão já embora que este não é um texto sobre política. Pelo menos sobre política pura e dura. Fiquem mais um pouco que eu não demoro muito. Vou apenas opinar sobre a maneira como falou o nosso primeiro-ministro. Há grandes comunicadores entre os políticos portugueses – é um facto. Paulo Portas é um deles, José Sócrates é outro e até Durão Barroso parece ter andado a ter aulas com os outros dois. Serve isto para dizer que Passos Coelho ainda não está à altura dos citados, embora esteja a fazer progressos. Quem viu o líder do PSD quando estava na oposição e quem o vê agora. Mais velho, mais anafado, mais – sem qualquer tipo de trocadilhos – seguro. Estava Gomes Ferreira a fazer-lhe perguntas diretas e eu, na minha bela maneira irritante de antecipar tudo, a tentar adivinhar como ia responder. Coelho lá foi adiando a resposta inevitável, até ao momento em que me fez rir. E convenhamos que nã...