Avançar para o conteúdo principal

As primeiras chuvas

Todos os anos é a mesma coisa. O mundo parece esquecer-se durante os meses mais quentes de como é viver com chuva. E assim que cai a primeira, escorregamos, caímos e mergulhamos em poças de fantasmas passados, tão cinzentos quanto este tempo. Aí estão elas de novo, as primeiras chuvas.

Apanham-nos desprevenidos. Saímos de casa de manga curta, de sapatilhas prontas a roer o asfalto, mas afinal apenas encontramos água a cair do céu, que teima infiltrar-se no nosso corpo e corroer as nossas memórias. A água fria não nos traz as melhores recordações e procuramos rapidamente um acoito onde nos possamos defender.

É que até o mais forte dos ferros se deixa moldar pela água. Basta tempo. É por isso que procuramos
apoio. O de um guarda-chuva, o de um casaco, o de um abraço. Qualquer coisa que nos fale do sol que vivemos e que nos garanta que ele vai regressar mais depressa do que pensamos. Alguém que troce dos senhores da meteorologia, que diga que eles não percebem nada disto e que os alertas amarelos não passam de exacerbações.

Mas a verdade é que chove e, diz o provérbio, quem anda à chuva molha-se. Uma espécie de risco, de arriscar-se a petiscar algo fora da validade ou estragado por este tempo sombrio. É que outono é o mais belo de todos sim, mas nem só pelo que tem de bom. Há um lado negro, uma voz do passado que não queremos e que nos amedronta o futuro. E ainda assim parece ser difícil resistir-lhe, porque o guarda-chuva pode tapar-nos a cabeça, mas não os pés.

Evitemos, pois, as poças de sereias e caminhemos para terra firme, que a chuva há de passar.

Comentários

D disse…
o ser humano tem o dom da visão muito apurado.
ele viu, contemplou o que sentiu em cada uma das estações, e cognitivamente atribuiu significados.
para uns mais sérios, para outros mais construtivos, para uns mais saudosos e dolorosos. para uns coerentes,outros dramáticos,outros puramente factual.
o que importa aqui é que o homem faz uso do que vê para se lembrar de como se sente. ou talvez o que se sentiu fique implicitamente retido numa paisagem, sejam folhas de outono numa porta, frio num lugar ou sol no coração.
que não nos esqueçamos igualmente, que a vida tem um poder enorme de nos fazer acreditar que as paisagens, tal como nós , estão em contínua mudança.
portanto pode haver sol no outono, chuva no verão e frio na primavera.
é uma questão de perspectiva!

Os mais vistos do momento

Afinal havia lontra, já dizia Mónica Sintra

Já lá vão mais de 20 anos deste que Mónica Sintra popularizou o tema ‘Afinal havia outra’, mas permitam-me que esta semana traga tão bela canção à memória. Isto a propósito da arrebatadora notícia vinda de Espanha sobre um alegado crocodilo à solta no rio Douro.
Depois de alertas, últimas horas, páginas de jornais em papel e online, chegou-nos o tão temido desfecho: o entusiástico e perigoso crocodilo do Nilo que pôs a Península Ibérica em alerta pode, no cenário mais provável, não passar de uma lontra gorducha e fofinha.
Senti-me de imediato como Mónica Sintra e partilhei o sofrimento de quem é enganado até ao último segundo, batendo depois de frente com a verdade, numa colisão frontal de onde ninguém pode sair em bom estado. Apeteceu-me cantar a plenos pulmões que ‘afinal havia lontra’ no Douro e não um crocodilo voraz à espera de um turista ou pescador apetitoso, ao bom velho estilo Jurassic Park.
A caricata situação serve, pois, a meu ver, para relembrar três coisas:
- a saúde vi…

João Félix e a discípula de Centeno

Os tempos vão bravos. Por esta altura já só queremos fugir a tudo o que seja - mas também que fale de - vírus, essa coisa maldita que chegou e arrasou, como diriam as teenagers de hoje em dia. E é precisamente uma delas que protagoniza a minha singela reflexão de hoje.
Para mim, este vídeo foi dos melhores momentos da semana: João Félix, internacional português do Atlético Madrid, estava, como nós, comuns mortais, cerrado entre as paredes de sua casa, nesta força conjunta chamada quarentena. O petiz jogava um videojogo e ao seu lado tinha a sua orquídea, Margarida Corceiro, que também fixava atentamente o ecrã, certamente torcendo pelo seu dente-de-leão, porque isto do amor não pode ser só nos relvados da vida, mas também numa simples partida de FIFA online.
Ora, a certa altura, o avançado escolhia a melhor tática para levar de vencido o adversário e deambulava pelas opções do jogo, quando, de súbito, o olhar penetrante da parceira é atacado por um pensamento intrigante, que de imed…

Cima ou baixo

É uma maneira muito própria de definir tudo e mais alguma coisa neste país e a verdade é que eu gosto dela. Nunca fui aquela pessoa de dividir as coisas por várias camadas, de as definir por estratos, ter vários separadores, uma pastinha para cada uma. Portugal não é assim mas, para o bem ou para o mal, lá vai funcionando dessa forma.
Cima ou baixo, ou acima ou abaixo, serve para nos orientarmos neste país cuja própria geografia tem por base a verticalidade. Não é à toa que quem mora em Lisboa vai lá acima no Natal e lá abaixo no verão. Ou que quando viajamos e pedimos indicações para encontrar aquele tasco, nos dizem do outro lado do telefone que é mais abaixo nessa rua.
No futebol, por exemplo, os treinadores reforçam que acima de tudo está a equipa, embora nos últimos tempos a bola fique abaixo do tema das arbitragens nas prioridades de quem fala aos adeptos. E isso danifica aquele sentimento de ir ao estádio no domingo à tarde com os amigos e procurar a nossa fila na bancada: “É …