Avançar para o conteúdo principal

Ciclone

Tal como um pão de ló se parte às fatias para dar para todos, também a vida se divide em ciclos, pelo mesmo motivo. Temos um bocadinho disto e logo depois seguimos para aquilo, rapidamente, para ver se não apanhamos grande fila.

Os ciclos estão por todo o lado e não há como fugir deles. São janelas que se abrem pela fresca da manhã e se fecham à noite para os mosquitos não entrarem. Há ciclos que se repetem, como quando chumbamos no 5º ou 6º anos, e outros que só acontecem uma vez, como a passagem de Aimar pelo futebol português.

Queiramos ou não, saltamos de ciclo em ciclo. O problema é que nem sempre podemos escolher em qual aterramos, e alguns fecham-se mesmo à nossa frente. Foi precisamente o que me aconteceu.

Tenho a perfeita noção de que, há algumas semanas, fechou-se um ciclo no qual nunca entrei. Fiquei simplesmente a vê-lo rodar, naquela do “ver no que dá”. Talvez tenha gasto demasiado tempo a conferir o oxigénio antes de mergulhar e a verdade é que acabei por chegar a terra sem ter posto os pés na água.

Parece-me que este foi um ciclo único, uma oportunidade singular que raramente, muito raramente, calha duas vezes à mesma pessoa e hoje percebo que, na hora do fecho, era esse o motivo que me fazia doer aqui dentro.


É incrível como este é um dos únicos momentos em que gostava de não ter razão, ainda que a tenha quase sempre. Ciclicamente, vá.

Comentários

Os mais vistos do momento

Clave de sol

Um círculo vermelho. E tu no meio. É assim, tão simétrica, a nossa existência. Não fosse o rock’n’roll assolar-me os ouvidos, não fossem os velhos e bons Stones ditarem o ritmo, e era nas tuas curvas que leria a pauta. Autêntica clave, mais forte do que o sol, com mais classe do que a lua. Se nas veias o sangue corre sempre em frente, na cabeça o pensamento diverge sobre todos os caminhos a tomar para chegar a ti. Somos o mapa de nós mesmos, já criámos até um caminho novo, que ninguém tinha previsto e que ninguém percorrera antes. Sem indicações, lá seguimos viagem, cientes de que 2+2 só são quatro se quisermos. Liberdade completa, foi também para isto que Abril nasceu. Existimos em todas as línguas, somos vistos em todos os gestos. Não é preciso explicar a ninguém, porque ninguém ia entender. E, no entanto, entendem-nos desde o princípio. Não fomos feitos um para o outro. Não somos o testo da panela, não encaixamos como Legos, nem temos penteados à Playmobil. Mas a forma como enco...

LUZ - 2."Nós não vamos. Ela vai"

É estranho para quem está de fora compreender como toda uma estrutura gira em torno de uma só pessoa. Éramos centenas, cada um com um papel a desempenhar na vida de Luz. Atrevo-me a dizer que a comum Andreia foi, de longe, o ser humano mais vigiado, condicionado e encaminhado neste planeta, e ainda assim completamente livre na sua liberdade fabricada. Os anos foram passando, Luz crescendo e a equipa mudando. Os anos também passaram por mim e vi entrar e sair muita gente do projeto. Fui escalando na hierarquia das idades, dei uma última palmada nos mais velhos que se retiraram e interroguei vigorosamente os recém-chegados. Gostava de todos e, afinal, foram o que tive de mais parecido com família. É o momento de vos falar de mim. Com uma vida banal até aos vinte e poucos, uma noite de copos na universidade mudou tudo. Copos sim. Sempre consegui conciliar a diversão com o estudo e era frequente perguntarem-me como o fazia. Voltando àquela noite, estava à espera dos amigos de sempre n...

Os três dias dos namorados

Ah o dia dos namorados… Muitos são os que dizem que não faz sentido nenhum. Tolos. Não só faz todo o sentido como devia ser a triplicar. E, ainda por cima, este ano encaixava na perfeição: o fim-de-semana dos namorados. Assim mesmo, de sábado a segunda, como quem estabelece uma programação para a nova coqueluche da rentrée televisiva. O dia dos namorados não devia ser um, mas sim três. Um pouco como a festa do Avante, mas com corações em vez de foices e martelos. Três dias como o Carnaval, revestidos de folia, expectativa e máscaras – enfim, tudo a que o amor tem direito. Tudo começava no sábado. Afinal, não há dia mais festivo do que este. Dormimos a manhã toda e não trabalhamos no domingo. Não sei se há estudos que o provem, mas tenho cá para mim que as maiores surpresas do Sr. Cupido aparecem ao sábado. Claro que podemos planear tudo durante a semana, imaginar o que vamos – ou temos de – dizer àquela miúda para ela cair na nossa conversa. Podemos comprar o cachecol da mo...