Avançar para o conteúdo principal

Des(culpas)

Não gosto de desculpas. E não estou a falar daquelas desculpas esfarrapadas que ouvimos de vez em quando. Estou a falar de pedidos de desculpas.


"Pelo menos, deve-me um pedido de desculpas!"


Poupem-me, senhoras e senhores. As desculpas são como as saudades ou as compensações. Se existirem, podem até parecer-nos bom sinal, mas na verdade resultam de algo negativo que aconteceu anteriormente.


Uma verdade dolorosa é sempre melhor que um pedido de desculpas por ter mentido! Um esforço para sorrir é sempre melhor que um pedido de desculpas por estar amuado naquele dia! Uma cedência de passagem é sempre melhor que um pedido de desculpas por ter batido!



As desculpas não fazem sentido. Sentido nenhum. E por isso não gosto de pedir a ninguém que me desculpe. Prefiro assumir a culpa, o que é muito, muito diferente, meus caros. O mesmo se aplica aos outros, em relação a mim. Como podem vocês assumir a culpa de algo que fizeram se logo a seguir suplicam que vos tirem essa mesma culpa? Sejam honestos. Perguntar ao outro se ficou chateado ainda se aceita, mas pedir desculpa é ridículo. Expõe a pessoa a uma situação de inferioridade completamente desnecessária.


Atrevo-me a dizer que um pedido de desculpas nada tem a ver com humildade. Mas talvez não queira ser demasiado radical e dizer que as pessoas humildes são as que não pedem desculpa. É que podia ter de pedir desculpa por isto.


E eu não quero.


Comentários

Os mais vistos do momento

Clave de sol

Um círculo vermelho. E tu no meio. É assim, tão simétrica, a nossa existência. Não fosse o rock’n’roll assolar-me os ouvidos, não fossem os velhos e bons Stones ditarem o ritmo, e era nas tuas curvas que leria a pauta. Autêntica clave, mais forte do que o sol, com mais classe do que a lua. Se nas veias o sangue corre sempre em frente, na cabeça o pensamento diverge sobre todos os caminhos a tomar para chegar a ti. Somos o mapa de nós mesmos, já criámos até um caminho novo, que ninguém tinha previsto e que ninguém percorrera antes. Sem indicações, lá seguimos viagem, cientes de que 2+2 só são quatro se quisermos. Liberdade completa, foi também para isto que Abril nasceu. Existimos em todas as línguas, somos vistos em todos os gestos. Não é preciso explicar a ninguém, porque ninguém ia entender. E, no entanto, entendem-nos desde o princípio. Não fomos feitos um para o outro. Não somos o testo da panela, não encaixamos como Legos, nem temos penteados à Playmobil. Mas a forma como enco...

LUZ - 2."Nós não vamos. Ela vai"

É estranho para quem está de fora compreender como toda uma estrutura gira em torno de uma só pessoa. Éramos centenas, cada um com um papel a desempenhar na vida de Luz. Atrevo-me a dizer que a comum Andreia foi, de longe, o ser humano mais vigiado, condicionado e encaminhado neste planeta, e ainda assim completamente livre na sua liberdade fabricada. Os anos foram passando, Luz crescendo e a equipa mudando. Os anos também passaram por mim e vi entrar e sair muita gente do projeto. Fui escalando na hierarquia das idades, dei uma última palmada nos mais velhos que se retiraram e interroguei vigorosamente os recém-chegados. Gostava de todos e, afinal, foram o que tive de mais parecido com família. É o momento de vos falar de mim. Com uma vida banal até aos vinte e poucos, uma noite de copos na universidade mudou tudo. Copos sim. Sempre consegui conciliar a diversão com o estudo e era frequente perguntarem-me como o fazia. Voltando àquela noite, estava à espera dos amigos de sempre n...

Os três dias dos namorados

Ah o dia dos namorados… Muitos são os que dizem que não faz sentido nenhum. Tolos. Não só faz todo o sentido como devia ser a triplicar. E, ainda por cima, este ano encaixava na perfeição: o fim-de-semana dos namorados. Assim mesmo, de sábado a segunda, como quem estabelece uma programação para a nova coqueluche da rentrée televisiva. O dia dos namorados não devia ser um, mas sim três. Um pouco como a festa do Avante, mas com corações em vez de foices e martelos. Três dias como o Carnaval, revestidos de folia, expectativa e máscaras – enfim, tudo a que o amor tem direito. Tudo começava no sábado. Afinal, não há dia mais festivo do que este. Dormimos a manhã toda e não trabalhamos no domingo. Não sei se há estudos que o provem, mas tenho cá para mim que as maiores surpresas do Sr. Cupido aparecem ao sábado. Claro que podemos planear tudo durante a semana, imaginar o que vamos – ou temos de – dizer àquela miúda para ela cair na nossa conversa. Podemos comprar o cachecol da mo...