Avançar para o conteúdo principal

A persiana do meu quarto fechou-se

A persiana do meu quarto fechou-se. Já foi há algum tempo e desta vez foi para sempre. Talvez se tenha cansado de ser aberta ao meio dia e fechada às tantas da manhã, como aconteceu por diversas vezes. Talvez o meu quarto se quisesse proteger do sol, do barulho, do mundo exterior em geral.


A persiana do meu quarto fechou-se. A luz não pode entrar, bem tenta pelas pequenas frestas. O ar não pode entrar, bem tenta pelas pequenas frestas. O ar, a luz, o barulho, a vista, as casas, o estádio, a igreja, a cidade toda, fica tudo da parte de fora. Mas continuam a tentar entrar. Porquê? Porque insistem?


A persiana do meu quarto fechou-se. Ele está sozinho agora, deve sentir-se sossegado, sei lá. Escuro, silencioso, deve estar bem assim. Será que devo consertar a persiana? Devo voltar a deixar a luz, o ar e o barulho entrarem pela janela? Não sei, ele parece-me bem assim. Pelo menos, ainda me parece bem assim.


A persiana do meu quarto fechou-se. É comum dizer-se que "o meu quarto é o meu mundo". Sendo assim, qual a melhor opção? Deixar entrar tudo e todos? O meu quarto/mundo parece estar tão bem assim. Calmo, tranquilo, sossegado. Devo deixá-lo em paz? Ele parece gostar desta solidão, longe do mundo e dos problemas dele...


A persiana do meu quarto fechou-se. Confesso que já tenho algumas saudades de espreitar pela janela. De ver a luz, de respirar o ar, de ver casas e pessoas. De deixar que elas entrem no meu quarto/mundo e me atinjam com toda a força. É possível viver sem tudo isto? É possível viver num quarto/mundo fechado, isolado, afastado? Definitivamente... não.


A persiana do meu quarto fechou-se. Mas eu vou consertá-la. Podem ter a certeza.

Comentários

Mary disse…
Pois acho muito bem que a consertes e rapidamente!! Se quiseres algum material poderei tentar encontrar, porque assim como está essa tua persiana é que não pode ser!!
O teu pensamento agora deve ser este:
"I wanna tear down the walls
That hold me inside.
(...)
I wanna feel sunlight on my face.
I see the dust-cloud
Disappear without a trace."

Os mais vistos do momento

Clave de sol

Um círculo vermelho. E tu no meio. É assim, tão simétrica, a nossa existência. Não fosse o rock’n’roll assolar-me os ouvidos, não fossem os velhos e bons Stones ditarem o ritmo, e era nas tuas curvas que leria a pauta. Autêntica clave, mais forte do que o sol, com mais classe do que a lua. Se nas veias o sangue corre sempre em frente, na cabeça o pensamento diverge sobre todos os caminhos a tomar para chegar a ti. Somos o mapa de nós mesmos, já criámos até um caminho novo, que ninguém tinha previsto e que ninguém percorrera antes. Sem indicações, lá seguimos viagem, cientes de que 2+2 só são quatro se quisermos. Liberdade completa, foi também para isto que Abril nasceu. Existimos em todas as línguas, somos vistos em todos os gestos. Não é preciso explicar a ninguém, porque ninguém ia entender. E, no entanto, entendem-nos desde o princípio. Não fomos feitos um para o outro. Não somos o testo da panela, não encaixamos como Legos, nem temos penteados à Playmobil. Mas a forma como enco...

Os malucos do riso

Porque somos tolinhos se rimos sozinhos? A questão rima mas impõe-se nos dia de hoje. Quem mostra os dentinhos ao mundo sem que expresse visivelmente o motivo é porque tem um parafuso a menos, bebeu uma garrafa de moscatel ou experimentou o louro tostado que oferecem no Rossio. Será? Pois bem, eu chamo tolinhos aos que censuram estes risos ou sorrisos. Entendam de uma vez por todas que quem ri sozinho é porque, na verdade, não o está. E não, não está com uma piela. Ouviu uma música na rua que fez lembrar-lhe um rosto, viu um carro que o transportou para uma viagem, sentiu um aroma que lhe reavivou um beijo. Mas não, ficam todos a olhar para o maluquinho. Se estivesse a chorar, iam ter com ele para perguntar o que se passa. Mas como ri, ninguém quer realmente saber e preferem fazer troça da situação. Quem sorri na rua sabe porque o faz. Leva à sua volta uma aura de otimisto, de energia positiva que os outros deviam reconhecer, apesar de não saberem a origem. É verdade que ...

Burros e Burrinhos

Há uns anos houve uma célebre saga portuguesa no grande ecrã chamada ‘Balas e Bolinhos’, Agora os tempos são mais evoluídos e a coisa passa do cinema para os ecrãs dos nossos computadores e telemóveis. Não é um filme, mas há quem os faça; não concorre aos Óscares, mas há atuações dignas de prémio. Os comentadores das redes sociais podem, então, dividir-se em muitas categorias, uma das quais, se me dão licença, apelido aqui de ‘ Burros e Burrinhos ’. A ideia veio-me à cabeça quando navegava por esses mares cibernáuticos fora. De vez em quando passo por ilhas de informação, onde as piranhas ávidas de ódio tentam mordiscar os calcanhares de quem, com elevação, tenta fazer deste um mundo mais culto. Tal como no futebol, as pessoas passaram a querer títulos acima de qualquer outra coisa . E, sendo assim, sentem-se banqueteadas com eles sem que, na verdade, tenham comido 5% da informação que se pretendia passar. Podem dizer-me, e eu admito, que o atual formato das redes soci...