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Mensagens

A noite que era minha

Eu e a noite estamos zangados. Esta é a verdade. Nunca mais saímos juntos até fugirmos os dois do dia para a minha cama, até nos abraçarmos um ao outro à espera que ela acorde de novo e possamos ir dar mais uma volta pela cidade.
A noite deixou-me e eu não sei porquê. Sempre lhe fui fiel, sempre a respeitei e estive sempre lá quando ela chamou por mim. A noite e eu éramos um só, brilhávamos ao luar como uma tiara de diamantes. A noite merecia essa tiara e eu era a pessoa certa para lha dar.
Eu e a noite estamos de costas voltadas. Por mais que eu a chame, por mais que eu lhe bata à porta, enfrentando o frio e o vento – algo que nunca foi impedimento para nós - , ela não responde, ela não está lá. Ela não brilha mais como dantes, pelo menos para mim.
Acho que a noite tem outro. Primeiro não queria pensar que isso fosse possível. Achava que tínhamos sido feitos um para o outro, que era com ela que ia ficar para sempre e que o escuro era uma das nossas cores favoritas, uma das nossas cores…

O amor é como as latas de atum

Que ninguém tenha dúvidas: quando alguém vos perguntar o que é o amor, respondam prontamente: é como uma lata de atum. Deem uns segundos para que a pessoa respire e absorva todo um mundo de possibilidades que acabou de conhecer, antes de passarem às explicações.
No amor, tal como no atum, é antes de mais preciso ter lata. Não me venham com bifes de atum, com essas paixões de noites de verão que até podem saber muito bem com uma sangria fresca, mas que desaparecem em poucas horas.
Uma lata de atum é feita para durar. Nela cabe um bocadinho do vasto oceano, ali perfeitamente conservado com o passar dos anos. É isso que queremos para o amor. Que também ele mantenha as suas feições com o passar do tempo, que não tenha os chatos prazos de validade e que a frase se fique pelo ‘consumir de preferência’, só assim, simples, sem o ‘antes de’.

Podemos usar o atum e o amor de maneiras distintas, umas mais trabalhadas do que outras. Há dias em que nos apetece chegar a casa e arrancar um beijo à…

A orquestra do Titanic

Durante muitos anos, quando ainda era um potro, não percebi como raio os músicos do Titanic continuaram a tocar até aos últimos minutos de vida do famoso barco. Lembram-se certamente: o luxuoso navio tinha uma orquestra que tentava animar os passageiros ao ar livre, enquanto estes lutavam por um lugar num bote salva-vidas à medida que a embarcação se afundava nas águas gélidas do oceano Atlântico.

Ora, aqui o escriba tinha muita dificuldade em entender a razão que levava aqueles desgraçados a continuar violino na mão, em vez de salvarem a própria pele ou, pelo menos, esboçarem uma reação de pânico absoluto perante a tragédia que se estava a desenhar à sua frente.
Hoje sei por que o fizeram. Infelizmente, o que a orquestra do Titanic fez naquela fatídica noite é atualmente replicado um pouco por todo o lado. Por vezes, não nos resta alternativa que não seja continuar o que estamos a fazer, ainda que ao nosso lado tudo e todos se vão desmoronando. Não é fácil, garanto-vos. Até porque …

Tempo para amanhã

É naqueles dias em que o calor aperta que mais precisamos de ar fresco. Por mais bonito que esteja o quadro do horizonte com um sol radiante, a verdade é que toda aquela luz nos sufoca como se algo se enrolasse à nossa volta e apertasse.
Apertasse o nosso peito, apertasse tanto o nosso peito que teríamos os pulmões colados às costas e nos seria difícil respirar. Afinal, trata-se disso: respirar. Não há dinheiro que pague um ar fresco pela manhã. Não há balão suficiente no mundo onde caiba todo o ar que precisamos. Não há um espaço definido para os braços que abrimos em duas direções opostas.

É naqueles dias de calor que temos mais frio. É nesses momentos ofegantes que mais precisamos do abraço de alguém, que mais vivemos a distância, que mais sentimos a ausência. É aí que o tal calor passa a gelo e os raios de sol se transformam em neve pura e dura, vasta e imensa.
É nesses dias cerrados que colocamos no ar aquela música que nos leva longe, que nos faz baixar a cabeça entre os ombr…

Os inúteis alarmes dos carros

Estava numa noite destas a dormir descansadinho na minha cama quando, de repente, um som estridente invade todo o quarto e acorda-me de imediato, como uma mãe que entra por ali adentro, acende a luz e grita a plenos pulmões que está na hora de ir para a escola.
Ora, no meu caso, a escola já ficou para trás e a minha querida mão está uns bons quilómetros para norte. O barulho era outro, igualmente imenso, mas vinha do lado de fora da janela. Era um alarme de um carro, mas que, naquele momento, parecia quase um festival de death metal ao fundo da minha cama.
Teria alguém assaltado um carro na rua? Seria o bandido que me levou o rádio há meses? Ou talvez o senhor que passeia por aqui com um carrinho de compras enquanto grita pelo Benfica?
Na verdade, o que é que isto interessava? Alguém me tinha, literalmente, tirado o sono. Vamos lá ver se nos entendemos: estamos em 2017 e ainda há carros com alarme?
Reflitam comigo: para que serve um alarme de um carro? “Para afugentar os ladrões, par…