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Mensagens

As primeiras chuvas

Todos os anos é a mesma coisa. O mundo parece esquecer-se durante os meses mais quentes de como é viver com chuva. E assim que cai a primeira, escorregamos, caímos e mergulhamos em poças de fantasmas passados, tão cinzentos quanto este tempo. Aí estão elas de novo, as primeiras chuvas.
Apanham-nos desprevenidos. Saímos de casa de manga curta, de sapatilhas prontas a roer o asfalto, mas afinal apenas encontramos água a cair do céu, que teima infiltrar-se no nosso corpo e corroer as nossas memórias. A água fria não nos traz as melhores recordações e procuramos rapidamente um acoito onde nos possamos defender.
É que até o mais forte dos ferros se deixa moldar pela água. Basta tempo. É por isso que procuramos apoio. O de um guarda-chuva, o de um casaco, o de um abraço. Qualquer coisa que nos fale do sol que vivemos e que nos garanta que ele vai regressar mais depressa do que pensamos. Alguém que troce dos senhores da meteorologia, que diga que eles não percebem nada disto e que os alertas…

Sonhamos

Raras são as vezes em que o dia-a-dia nos corre tão bem como aquele final do filme das nossas vidas. Os bons não ganham todas as batalhas, nem sempre conseguimos agarrar a mão de quem cai no precipício, ninguém acerta sempre nas escolhas que faz. Mas nada disso nos tira um direito que é nosso, que assiste a qualquer um, que ninguém tem o poder de tirar a outrem: sonhamos.
Inicialmente sonhamos com monstros. Temos medo que eles estejam debaixo da cama, que saiam do nosso roupeiro de noite e que a luz de presença que os papás deixaram acesa não seja suficiente para os afugentar. Mas, afinal, quem os leva para longe é a idade. Os anos passam, os papões fogem. Ou, pelo menos, mudam de forma.
Traçamos sonhos na adolescência. Muitos, mais do que podemos processar. E por isso não calculamos muitos, não percebemos alguns, não atingimos nenhuns. Mas essa é a fase própria para isso, para fazer dos rascunhos vigas de metal sobre as quais assentamos o que pensamos ser uma vida eterna de folia, …

Não esqueço

Nem um ponto, nem uma vírgula. Eles, que até costumam andar juntos, não esquecemos nenhum dos dois. Nem nada do que está no meio. Há dias em que voltamos atrás na frase, em que nos apetece pegar numa borracha e reescrever a história. Sabemos bem que é impossível, que escrevemos tudo a caneta e que a única coisa a fazer é guardar o que resta do nosso livro: memórias.
Por mais quilómetros que andemos, lá atrás fica sempre o mesmo ponto de partida. Podemos nunca mais lá voltar – é, aliás, o mais provável – mas ninguém apaga os nossos pontos do mapa. Não há como dissolver o que não é solúvel.
A vida continua e ganha formas de todas as cores. Ganha uma forma colorida de nos fazer olhar para trás e espreitar a curva que já rasgámos. Nada vemos do outro lado, mas sentimos o vento que vem de lá: já nos passou pela face, já nos alegrou com boas tempestades, já foi de bonança para o império que governámos a dois.
Não queremos voltar. Mas o facto de caminharmos em direção ao futuro não impede q…

Incompetentes

Não sou gajo de me enervar. Mas se há coisa que me deixa à beira dos limites é a incompetência das pessoas no seu trabalho. Não entendo, não admito e não perdoo.
Nos últimos dias precisei de recorrer a vários serviços públicos e privados, e não houve um em que tudo corresse bem. Mais: não houve um em que tudo corresse como o previsto… pelas próprias entidades. Ora falharam prazos, ora enganaram-se no processo, ora simplesmente não fizeram nada.
Não quero saber de desculpas; de que estamos em agosto e há menos gente, de que houve um “lapso alheio à nossa empresa”, de que faltam documentos que inicialmente não foram pedidos…
Eu não pedi atendimento especial, não tentei seduzir a empregada, não fiz voz grossa ao telefone, não falhei um pagamento, não cheguei atrasado. Permitam-me que seja algo egocêntrico: eu fui perfeito. Com todas as letras. Ao passo que essas empresas, a maior parte delas multinacionais com nome reputado, falharam todas.
Existe livro de reclamações, eu sei. Existem…

Trio de choques

Todos os dias batemos nalguma coisa. Choques há muitos, para todos os gostos. Mas há uns em que batemos com mais força, em que nenhum airbag deste mundo é suficiente para nos amparar. Há embates cuja onda de choque demora milésimos de segundo a invadir-te; outros há em que as consequências se arrastam durante anos e te limitam para o resto da vida.
Em 27 anos tive três choques. Na verdade tive mais, mas estes são três belos exemplos, da primeira à última letra. Três situações que podiam muito bem não ter acontecido, que preferia que nunca tivessem existido e que pagaria bem para não estar a descrevê-las nestas linhas. Mas, na verdade, aconteceram.

As três foram completamente diferentes e afetaram-me de modos também eles distintos. Com uma situação já lido bem hoje em dia; com outra sei que vou voltar a lidar um dia destes; e com a terceira não mais terei de lidar por opção própria.
Falo, num dos casos, de uma patetice. Por mais estranho que pareça, um dos maiores choques da minha vid…