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Mensagens

Ela é 96

Escrevi aqui, há quase dois anos, um texto sobre aquelas coisas minúsculas que nos impedem de seguir em frente. “Há sempre algo” que não controlamos e que aumenta o atrito na estrada para a meta. Hoje trago um problema ainda maior: quando os entraves que surgem à nossa frente foram lá colocados… por nós próprios.
Estou a falar daquelas desculpas bem criativas, daquela preguiça que ataca no momento mais inoportuno, daquela Dona Inércia que dava a cara num anúncio ao falecido BES. E é precisamente num banco que nos sentamos enquanto pensamos o quão fantástico era estar de pé. Faz pouco ou nenhum sentido, mas é assim.
Conseguimos encontrar no mais pequeno pormenor uma razão do tamanho do mundo para não avançarmos. Vemos em qualquer cisco uma duna imensa de areias movediças. Pedimos uma semana para decidir algo que nos tomaria 10 segundos a refletir. E acabamos por não lhe ligar porque ela é 96.

Os malucos do riso

Porque somos tolinhos se rimos sozinhos? A questão rima mas impõe-se nos dia de hoje. Quem mostra os dentinhos ao mundo sem que expresse visivelmente o motivo é porque tem um parafuso a menos, bebeu uma garrafa de moscatel ou experimentou o louro tostado que oferecem no Rossio. Será?
Pois bem, eu chamo tolinhos aos que censuram estes risos ou sorrisos. Entendam de uma vez por todas que quem ri sozinho é porque, na verdade, não o está. E não, não está com uma piela. Ouviu uma música na rua que fez lembrar-lhe um rosto, viu um carro que o transportou para uma viagem, sentiu um aroma que lhe reavivou um beijo.
Mas não, ficam todos a olhar para o maluquinho. Se estivesse a chorar, iam ter com ele para perguntar o que se passa. Mas como ri, ninguém quer realmente saber e preferem fazer troça da situação.
Quem sorri na rua sabe porque o faz. Leva à sua volta uma aura de otimisto, de energia positiva que os outros deviam reconhecer, apesar de não saberem a origem. É verdade que o riso é con…

Por aqui passou de tudo

Por aqui passou de tudo. Passaram amigos e as aventuras com eles, passaram culpas e arrependimentos, passou a polícia e a autoridade.
Por aqui passaram bocadinhos de trabalho, partes de Coimbra e pedaços de ilusão. Por aqui passou felicidade, festas e retratos de mim mesmo.
Por aqui passaram jogos de palavras, o futebol esteve presente e não faltaram alguns medos. Porque o amor tem ligações à tragédia, por aqui passaram sonhos que se tornaram despedidas.
Passaram por aqui projetos que me preencheram e raiva que esvazia qualquer um. Por aqui passaram dúvidas mas também houve magia no ar.
Por aqui passaram mapas, passaram desejos escaldantes e toques políticos com humor à mistura. Passaram ainda pessoas, muitas, mais do que ninguém.

Por aqui já passaram oito anos. E a data até já foi ontem. 
Parabéns ao Digo-te.

Um justo campeão

Só vai haver um campeão. Esta verdade de La Palice, que em breve tanta alegria trará a muito boa gente, reduz no entanto o futebol à crueldade que por vezes o caracteriza. Benfica e Sporting estão na luta por um título que encaixaria que nem uma luva em qualquer um deles. Mas apenas um vai celebrar. Com a justiça possível.
Em outubro escrevi no Record que o Sporting era o principal candidato à conquista do campeonato, após ter ganho na Luz por 3-0. Comecei, no entanto, por dizer que a corrida ao título é feita de momentos. Faltou-me, por questões de espaço, referir que era muito cedo para fazer um julgamento final.
Passaram sete meses. Se tivesse de escrever hoje, obviamente atribuiria o favoritismo ao Benfica – só depende de si – , embora mantivesse a profunda frase dos momentos. É que faltam duas jornadas e parece, ainda assim, que nunca faltou tanto como agora para sabermos quem leva o caneco.
O Benfica merece ser campeão. Se o conseguir vai coroar o esforço de quem andou quase semp…

O amor quer-se bem passado

Andava eu a ouvir músicas ao acaso, nessas viagens loucas que o Youtube nos proporciona, quando ouvi a maior verdade do dia, se não mesmo do ano. O amor quer-se bem passado. É isto, sem tirar nem pôr, que no que está bem não se mexe.
De facto, o amor não se quer morno, não rima com semifrio e não nasce no gelado. O amor precisa de ser cozinhado, bem cozinhado, para matar todas as bactérias. É ardente e, portanto, tem de ser fervido. Ao lume, a vapor, no forno do coração.
No amor não há lugar a meio termo. Não há ninguém que, como o empregado da cervejaria, entenda que queremos o prego “médio”. O amor não pode ser cru. Um amor de sushi não flutua, um amor de tártaro acaba – acreditem – por ir ao fundo.
Não é difícil entender que um amor não pode ter sangue. Que a desculpa de que assim fica tenrinho, que não fica seco, que é mais saboroso, são tudo tretas de quem nunca cozinhou um amor a sério. De quem nunca temperou um amor com o sal das próprias lágrimas, de quem nunca o virou do ave…