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Mensagens

O amor quer-se bem passado

Andava eu a ouvir músicas ao acaso, nessas viagens loucas que o Youtube nos proporciona, quando ouvi a maior verdade do dia, se não mesmo do ano. O amor quer-se bem passado. É isto, sem tirar nem pôr, que no que está bem não se mexe.
De facto, o amor não se quer morno, não rima com semifrio e não nasce no gelado. O amor precisa de ser cozinhado, bem cozinhado, para matar todas as bactérias. É ardente e, portanto, tem de ser fervido. Ao lume, a vapor, no forno do coração.
No amor não há lugar a meio termo. Não há ninguém que, como o empregado da cervejaria, entenda que queremos o prego “médio”. O amor não pode ser cru. Um amor de sushi não flutua, um amor de tártaro acaba – acreditem – por ir ao fundo.
Não é difícil entender que um amor não pode ter sangue. Que a desculpa de que assim fica tenrinho, que não fica seco, que é mais saboroso, são tudo tretas de quem nunca cozinhou um amor a sério. De quem nunca temperou um amor com o sal das próprias lágrimas, de quem nunca o virou do ave…

"Ninguém" é tudo

Nunca subestimar o poder de uma música. Aprendam, faz sentido. Que ninguém duvide disso. Que ninguém pense o contrário por um segundo que seja. Porque ali, naquele momento, só estava eu. Tanta gente à minha volta e só estava eu. E mais ninguém.
Ninguém podia estar ali para além de mim. À primeira vista podia pensar que sim, que tu podias perfeitamente estar ali, que estavas em todas as notas daquela música. Que pairavas naquele ar, que estavas à distância de um sono. Que estavas ali comigo. Mas não estavas. Não estava ninguém.
Quando a letra me dizia que aquele era o meu lugar, quando as luzes davam cor ao que os olhos só viam a preto e branco. Quando um sorriso forçado me servia o último copo da noite, quando passava a mão pelo cabelo, quando sorria, fechava os olhos e levantava a cabeça. Era só eu. Eu e ninguém.

Não estavam as tuas cores, não estavam os teus sons, não estava a tua força. E ainda assim lá estava eu, fechado como um bebé na barriga da mãe. A sorrir feito tolinho, a s…

Os três dias dos namorados

Ah o dia dos namorados… Muitos são os que dizem que não faz sentido nenhum. Tolos. Não só faz todo o sentido como devia ser a triplicar. E, ainda por cima, este ano encaixava na perfeição: o fim-de-semana dos namorados.
Assim mesmo, de sábado a segunda, como quem estabelece uma programação para a nova coqueluche da rentrée televisiva. O dia dos namorados não devia ser um, mas sim três. Um pouco como a festa do Avante, mas com corações em vez de foices e martelos. Três dias como o Carnaval, revestidos de folia, expectativa e máscaras – enfim, tudo a que o amor tem direito.
Tudo começava no sábado. Afinal, não há dia mais festivo do que este. Dormimos a manhã toda e não trabalhamos no domingo. Não sei se há estudos que o provem, mas tenho cá para mim que as maiores surpresas do Sr. Cupido aparecem ao sábado. Claro que podemos planear tudo durante a semana, imaginar o que vamos – ou temos de – dizer àquela miúda para ela cair na nossa conversa. Podemos comprar o cachecol da moda, faze…

Janeiro veloz

O último ano já foi assim, mas janeiro bateu todos os recordes. Parece que me deitei na manhã do dia 1, após a tradicional noite de festa, e acordei hoje, em pleno primeiro dia de fevereiro.
O ritmo a que as coisas acontecem tem sido tão intenso que lembra uma das necessidades básicas e em parte inexplicável do ser humano: a adrenalina. A velocidade, sua irmã gémea, fez destes 31 dias um mero risco rápido na folha em branco de 2016, daqueles traços que começam leves, engrossam a meio e desaparecem tal como surgiram, ao de leve.
A velocidade vicia. Uma vez no ritmo, ninguém resiste a carregar um bocadinho mais no acelerador, ao mesmo tempo que não podemos saltar fora do comboio em andamento. Olhamos para a frente e conseguimos ver as coisas chegar a nós num ápice. De braços abertos, conseguimos abraçar algumas delas, mas outras passam irremediavelmente por nós e afastam-se num piscar de olho.

A rapidez com que deslizamos o dedo pelo telemóvel para definir o despertador é impressionan…

O jogo de Lemmy

Morreu Lemmy Kilmister. Aos 70 anos, o mítico líder e fundador dos Motörhead não resistiu ao cancro. Soube da notícia quando me despedia de mais um dia de trabalho e fiz a minha pequena homenagem nas redes sociais com uma música sua chamada The Game. Pareceu-me terrivelmente apropriada.
Lemmy parecia, de facto, uma personagem de um jogo. E jogava de forma assombrosa em cima do palco. Em 2010 esteve no Rock in Rio Lisboa e lembro-me de, na altura, pensar muito antes de recusar ir ao concerto. A voz rouca, feia e cortante de Lemmy era habitual no Noites Longas à quinta-feira, em Coimbra, e eu tinha finalmente a oportunidade de a ouvir ao vivo. Mas não fui. Já não me lembro porquê.
Fiquei em casa e vi o concerto na televisão. Não demorei muito a mandar mensagem a quem foi com todo o arrependimento do mundo. Queria mesmo jogar o jogo de Lemmy.
Das botas ao chapéu, dos óculos escuros às verrugas gigantes na cara, Lemmy entregou-se à música com tudo, entrou no jogo a valer durante 40 anos.…