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Mensagens

Janeiro veloz

O último ano já foi assim, mas janeiro bateu todos os recordes. Parece que me deitei na manhã do dia 1, após a tradicional noite de festa, e acordei hoje, em pleno primeiro dia de fevereiro.
O ritmo a que as coisas acontecem tem sido tão intenso que lembra uma das necessidades básicas e em parte inexplicável do ser humano: a adrenalina. A velocidade, sua irmã gémea, fez destes 31 dias um mero risco rápido na folha em branco de 2016, daqueles traços que começam leves, engrossam a meio e desaparecem tal como surgiram, ao de leve.
A velocidade vicia. Uma vez no ritmo, ninguém resiste a carregar um bocadinho mais no acelerador, ao mesmo tempo que não podemos saltar fora do comboio em andamento. Olhamos para a frente e conseguimos ver as coisas chegar a nós num ápice. De braços abertos, conseguimos abraçar algumas delas, mas outras passam irremediavelmente por nós e afastam-se num piscar de olho.

A rapidez com que deslizamos o dedo pelo telemóvel para definir o despertador é impressionan…

O jogo de Lemmy

Morreu Lemmy Kilmister. Aos 70 anos, o mítico líder e fundador dos Motörhead não resistiu ao cancro. Soube da notícia quando me despedia de mais um dia de trabalho e fiz a minha pequena homenagem nas redes sociais com uma música sua chamada The Game. Pareceu-me terrivelmente apropriada.
Lemmy parecia, de facto, uma personagem de um jogo. E jogava de forma assombrosa em cima do palco. Em 2010 esteve no Rock in Rio Lisboa e lembro-me de, na altura, pensar muito antes de recusar ir ao concerto. A voz rouca, feia e cortante de Lemmy era habitual no Noites Longas à quinta-feira, em Coimbra, e eu tinha finalmente a oportunidade de a ouvir ao vivo. Mas não fui. Já não me lembro porquê.
Fiquei em casa e vi o concerto na televisão. Não demorei muito a mandar mensagem a quem foi com todo o arrependimento do mundo. Queria mesmo jogar o jogo de Lemmy.
Das botas ao chapéu, dos óculos escuros às verrugas gigantes na cara, Lemmy entregou-se à música com tudo, entrou no jogo a valer durante 40 anos.…

Um bilhete normal

Os bilhetes normais estão em extinção. É uma realidade que não mais pode ser escondida. As pessoas habituaram-se a ter descontos por tudo e mais alguma coisa e poucos são os que não apresentam um cartão, uma justificação ou uma criança pela mão que os leve a ter um bilhete especial.
Pode até nem ser mais barato, não pode é ser normal! O estimado leitor pode fiar-se no que estou a dizer, garanto-lhe. O problema não está no preço, está no facto de não sermos diferentes se não tivermos o nome na guest e não houver passadeira vermelha.
Ter um bilhete especial é não ser ninguém a abrir-nos a porta, mas sim termos a chave. É sermos do clube Bertrand quando os outros são do Benfica ou ter um cartão da Sacoor quando os outros têm sacos de cartão.
Há de reparar, caro internauta, que na próxima fila onde estiver para pagar algo as pessoas percorrem a carteira, ávidas de cédulas, identificações, cartões da empresa. E vão ao cinema ver o último Star Wars com dois bilhetes NOS e um estudante. E v…

Ponteiros

Faz amanhã uma semana que terminou uma outra que promete não me sair da cabeça tão facilmente. Há muito tempo, há muito tempo mesmo que as coisas más não se sobrepunham às boas. Há muito, muito tempo que não desejava que ele, o tempo, andasse mais rápido. Normalmente queixo-me da sua falta, mas naquela semana decidiu parar várias vezes. E eu parei com ele.
Parei com coisas de amigos, com coisas de família, com coisas minhas e, finalmente, com as coisas de Paris. Foram demasiadas paragens, “stand by” a mais, um trânsito infernal que esgota qualquer um. E, uma semana depois, sinto-me finalmente a chegar a casa, depois de andar uma eternidade à procura de lugar.
Descalço-me e sento-me no sofá a ver como anoitece cedo por estes dias. Dou por mim a recordar-me de outro sol, a outras horas, noutros olhares. Sei que isto faz tudo parte, que serve para nos pôr à prova. Sei que amanhã vão ser outra vez 20 horas, o metro vai estar apinhado e o telemóvel vai tocar. Sei que o rio vai correr para…

Mais espaço

Sempre fui desarrumado. Preferi sempre ter as coisas à vista para que fosse mais fácil aceder-lhes quando preciso, como quem guarda as emoções à flor da pele para que as sinta de imediato. Há vantagens e desvantagens, mas uma coisa é certa: o espaço não é infinito. E quando acaba?
Por vezes, lá nos decidimos e distribuímos as nossas coisas por gavetas, armários, caixas debaixo da cama ou na despensa. No entanto, chegamos a uma altura em que não cabe mais nada, em que não temos capacidade de encaixar nem mais uma agulha nesse palheiro de desorganização organizada. E o que fazer quando as coisas continuam a chegar até nós, quando nos dão ainda que não tenhamos pedido?
Há duas soluções, e qual delas a mais difícil… A primeira é arranjar uma nova gaveta, um novo sítio. Comprar um armário novo, uma estante, um fiel depositário em quem possamos confiar as nossas memórias. Ora, para vocês não sei, mas para mim é muito complicado. Desde logo o investimento necessário: um móvel custa dinheir…